Visita ao necrotério

Com vontade de conhecer um pouco sobre as histórias policiais da escritora norte-americana Patricia Cornwell, comprei num sebo o romance ‘Livro dos mortos’, lançado em 2007 nos EUA e em 2010 no Brasil.

Esse é um dos vários títulos da escritora que trazem como figura central a médica legista Kay Scarpetta. Desta vez, Kay busca desvendar o assassinato de uma jogadora de tênis famosa, chamada Drew Martin, encontrada morta em Roma com o corpo mutilado e areia nos olhos.

Patricia Cornwell foi repórter policial antes da literatura

Patricia Cornwell foi repórter policial antes da literatura

O texto introdutório é a cena do crime, o que significa que o leitor testemunha a ação e depois acompanha os trabalhos de investigação sabendo quem é o assassino. Esse malfeitor, no entanto, se relaciona com os inimigos de Kay, e isso insere o enredo principal em um conjunto de tramas menores.

Mas o que chama a atenção é a riqueza de detalhes com que Patricia descreve o trabalho da médica legista, praticamente levando o leitor para dentro de um necrotério.

Ao examinar o corpo de um garoto cuja morte se relaciona com o caso principal, Kay vive o desafio do legista, que precisa desvendar o que aconteceu “lendo” os sinais no corpo: “Seu estômago tubular e a emaciação apresentada dizem que ele passou fome durante semanas, quem sabe meses. Unhas ligeiramente deformadas indicam novos crescimentos em épocas diferentes e sugerem traumas repetidos de força bruta ou qualquer outro tipo de tortura sobre os minúsculos dedos das mãos e dos pés”.

A opção de mostrar o crime pela ótica do legista é mais uma forma de explorar a tradição do romance policial, que nasceu justamente da sensibilidade para desvendar um assassinato por meio de seus vestígios.

O livro de Patricia também faz referências a mitos históricos. O próprio título foi tomado emprestado da cultura do Antigo Egito, na qual ‘Livro dos mortos’ era uma coleção de feitiços, hinos e orações que pela primeira vez na história afirmava que a conduta moral é importante para a sorte da vida espiritual.

Outra referência é o Homem de Areia, um personagem da cultura europeia que assustava as crianças e que tem sua maior expressão no conto homônimo do escritor alemão E.T.A. Hoffmann (1776-1822).

Por fim, vale destacar que a Guerra do Iraque entra na composição da biografia do assassino, o que mostra o viés crítico da escritora. Os leitores desse livro na rede social Skoob, no entanto, dizem que Patricia tem romances mais empolgantes, como ‘Corpo de delito’ e ‘Lavoura de corpos’.

Patricia Cornwell - capa2Livro dos mortos,

Patricia Cornwell, tradução de Beth Vieira, Companhia das Letras, SP, 2010, 432 págs.

Foto: Divulgação

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