A linguagem do cinema

Um dos méritos dos livros sobre cinema é permitir que o espectador saia um pouco da sala de projeção e dê uma olhada no que está detrás das câmeras, nos vários aspectos que envolvem uma produção cinematográfica, como o mercadológico, afinal o filme é um produto, e o político, defendendo este ou aquele ponto de vista sobre uma questão.

Para quem gosta desse tipo de leitura, o pequeno livro ‘O que é cinema’, do professor, ator e roteirista Jean-Claude Bernardet, é uma excelente indicação, principalmente porque o texto explica o que é a linguagem cinematográfica: uma articulação de imagens que segue regras próprias, como uma gramática, para produzir os sentidos que nos permitem compreender as histórias. Conhecer um pouco sobre isso significa ter uma posição menos ingênua como espectador.

Bernardet ajudou a criar o curso de cinema na Universidade de Brasília

Bernardet ajudou a criar o curso de cinema na Universidade de Brasília

Quando estamos diante da tela tudo se passa como realidade e a linguagem do cinema fica escondida sob a ilusão que o espectador tem de estar suspenso em outro tempo e espaço. O espectador não percebe que existe um aprendizado que ele já incorporou e o faz aceitar a linguagem do cinema como algo natural: “Historiadores contam que, no início, espectadores achavam chocante ver apenas o rosto da pessoa na tela. O que tinha acontecido com o resto do corpo?”, escreve Bernardet.

Mas desde que o cinema se popularizou, os recortes de cenas pela câmera e a montagem dos filmes foram incorporados pela cultura e para nós se tornaram habituais as diferentes tomadas e movimentos de câmera articuladas para criar os sentidos que conferimos às sequências.

Graças à abordagem histórica do livro, o leitor percebe, no entanto, que o cinema nasceu como técnica de reproduzir o movimento em imagens e não como linguagem para contar histórias. Na primeira exibição pública de cinema, em 1895, em Paris, uma cena com um trem se aproximando da câmera assustou o público, apesar de saberem que eram apenas imagens: “É aí que residia a novidade: ver o trem na tela como se fosse verdadeiro”, afirma Bernardet.

Como o leitor poderá conferir nas páginas do livro, em pouco tempo a possibilidade de construir linguagens se deflagrou. Hoje em dia, a linguagem dos filmes de Hollywood ainda domina as telas, mas desde o início do século 20 isso não impediu que alemães e russos criassem suas próprias formas de fazer cinema, um processo que também aconteceu na América Latina, principalmente a partir dos anos 60, com as produções do Cinema Novo, que revelou a importância de uma abordagem mais autoral, ambígua e subjetiva.

Jean-Claude Bernardet - O que é cinema - capaO que é cinema,

Jean-Claude Bernardet, editora Brasiliense, SP, 128 págs.

Foto: Divulgação

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