Literatura de cordel

Uma agradável surpresa que tive ao visitar João Pessoa há poucos dias foi perceber que a literatura de cordel é uma expressão viva na cidade. Bancas de jornal e lojas de artesanato oferecem inúmeros títulos, é bem fácil comprar os livrinhos na capital paraibana. Trouxe vários deles na bagagem e de volta encontrei também um mundo de cordel para baixar na internet.

No filme ‘O homem que virou suco’, de João Batista de Andrade, de 1981, o personagem Deraldo, interpretado por José Dumont, é um cordelista tentando viver de sua arte em São Paulo, mas o que encontra são dificuldades e há até quem questione sua opção de viver de poesia. Para quem quiser conferir, esse clássico do cinema brasileiro está disponível no You Tube. A realidade que o filme refletia sobre a literatura de cordel, no entanto, está mudada.

“O cordel está muito bem valorizado no momento em todo o País: novela há bem pouco tempo; enredo de escola de samba… O que falta ao cordel falta também à cultura em geral: ser visto como importante pelos gestores públicos”, afirma o escritor Janduhi Dantas, de Patos (PB), que tem 20 títulos públicados, entre eles, ‘A mulher que vendeu o marido por R$ 1,99’, em sua 12ª edição e com uma adaptação para teatro.

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Ilustração de capa mantém a tradição do desenho no estilo das xilogravuras

Mas um passo importante para a literatura de cordel foi dado pela Lei Federal 12.198, de 2010, que reconhece como “profissionais repentistas” não só cordelistas, como também cantadores de Coco e emboladores, contadores de causos e cantadores e violeiros improvisadores.

“Hoje, já se vê os benefícios do reconhecimento dessa lei. O Ministério da Cultura tem lançado editais para projetos na área. Eu mesmo fui contemplado para lançar uma série de cordéis pelo Mais Cultura, que é um programa do ministério”, afirma o escritor e jornalista Vicente Campos Filho, também paraibano de Patos e com 40 títulos publicados.

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Montagem da peça ‘A mulher que vendeu o marido por R$ 1,99’ (foto: divulgação)

A literatura de cordel é conhecida em todo o Brasil porque sua expressão está ligada à identidade do nosso povo. As histórias bem humoradas de cangaceiros e vaqueiros têm raízes na cultura nordestina, que reinterpreta mitos de cavaleiros medievais trazidos ao País na colonização. Outras importantes marcas são a escrita métrica, a rima e a relação com a oralidade, com as histórias contadas.

“A métrica, sem dúvida, é essencial. Sem métrica, pode ser qualquer coisa, menos cordel. É ela que possibilita às pessoas cantarem a história, dando um toque de musicalidade ao texto”, afirma Vicente.

“O cordel é um tipo de texto escrito por pessoas do povo; simples, acessível, bem ao gosto popular. O cordel é essencialmente oral. A presença da oralidade é traço marcante do cordel“, diz Janduhi, que há poucos dias concluiu a adaptação do filme ‘Psicose’, de Alfred Hitchcock, para o cordel.

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