‘O cordel é essencialmente oral’

Janduhi: adaptação de obras clássicas para o cordel

Janduhi: adaptação de obras clássicas para o cordel

Confira a entrevista do escritor paraibano Janduhi Dantas para o blog Livros & Ideias:

Sabemos que a oralidade, ou as histórias contadas, são uma fonte de inspiração para a literatura de cordel. Atualmente, com a mídia de massa e tantas diferentes possibilidades de comunicação e informação, a oralidade continua sendo referência para a produção de cordel?

A meu ver, é fundamental a projeção da linguagem oral no cordel. Há cordelistas que, diante da evidência que tem tido o cordel nesses últimos tempos,  acham que se deve “escrever bem”, com cuidado com a forma, respeitando as regras da norma culta, da gramática. Eu particularmente acho que o cordel nada tem a ver com erudição. O cordel é um tipo de texto escrito por pessoas do povo; simples, acessível, bem ao gosto popular. O cordel é essencialmente oral. A presença da oralidade é traço marcante do cordel, que tem também como outros fortes elementos a métrica e a rima.

Quantos títulos você tem publicado? Quantos exemplares somam esses títulos?

Tenho perto de 20 títulos publicados. São edições (em sua maioria independentes, do autor) com tiragem total que ultrapassa o número de 50 mil exemplares; colocados à venda principalmente em bancas de revista de Patos, Campina Grande e João Pessoa, todas cidades da Paraíba. Chamo de edição cada tiragem de mil exemplares. O cordel A mulher que vendeu o marido por R$ 1,99 (que até já serviu de mote para uma crônica de Xico Sá na Folha de S.Paulo) já está na 12ª edição.

A métrica e os temas de vaqueiros e cangaceiros são essenciais para a literatura de cordel. A produção atual mantém essa tradição ou aponta para alguma inovação em termos de forma e conteúdo?

Sim, o cordel inova em forma, conteúdo e abordagens. Porque, assim como a vida, o cordel é dinâmico. Não vivemos hoje a época do cangaço. Mas que temos hoje? Os ataques de bandidos a delegacias de polícia, fóruns etc. É o que hoje acontece em nossa sociedade que os cordelistas estão abordando. Mas com uma linguagem de cordel, essencialmente narrativa e oral.

Quanto à forma, apresentação visual, é difícil querer que o cordel se apresente somente no formato tradicional, tamanho 11 cm x 15 cm, capa xilogravura. Quanto mais se consiga manter a forma melhor, mas é perfeitamente compreensível e aceitável que o cordel venha com formato diferente, novo. Acho que importante mesmo é o texto, o conteúdo. Mesmo que o cordel venha com capa colorida, papel couchê, ilustrações coloridas no miolo, o importante, fundamental mesmo, é o texto. Um texto que você vê, lê e diz: Isso é cordel! A história do homem que trocou a mulher por uma jumenta: humor, gracejo; isso é cordel.

Eu defendo e desejo que o cordel seja fundamentalmente uma “estorinha”, uma narrativa em versos metrificados e rimados. Mas há espaço também para os cordéis descritivos e até dissertativos, sobre pessoas, lugares e temas. Sou também autor de uma gramática em versos – Lições de Gramática em versos de cordel – publicado pela Editora Vozes, já em sua 4ª edição. Mas esse livro, no meu entender, não se trata de um “cordel”, é apenas um livro que se serve de elementos do cordel, como as estrofes sextilhas, por exemplo. Mas há quem entenda (cordelistas) que tudo é cordel.

E sobre seus trabalhos recentes?

Ultimamente, tenho me dedicado a adaptações. Transpus para o cordel um conto de Leon Tolstoy, já publicado pela editora da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). E está para ser publicado, também pela UEPB, Menino de Engenho em versos de cordel. Semana passada, concluí a adaptação de Psicose, o filme de Alfred Hitchcock. No cordel, ficou A história da mulher que roubou pra se casar. Esse trabalho, não sei se procuro uma editora ou se publico independente.

O que seria necessário ainda conquistar para que a literatura de cordel seja valorizada na cultura?

O cordel está muito bem valorizado mo momento em todo o País: novela da Globo, há bem pouco tempo; enredo de escola de samba… O que falta ao cordel (que é cultura, literatura popular) falta também à cultura em geral no país: ser visto como importante pelos gestores públicos. O cordel, por exemplo, pode contribuir muito no processo de leitura de nossas crianças; porque o cordel é de fácil leitura.

Qual a importância do universo cultural da cidade de Patos na sua produção?

Sempre que posso, incluo Patos em meus cordéis, como referência, como identificação do autor. Já fiz o Guia Turístico da Cidade em cordel.

(foto: divulgação)

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