A natureza dupla das coisas

A natureza dupla das coisas é um tema que povoa o mundo dos escritores. A realidade, também, não faz por menos. Na semana passada, as mortes do presidente venezuelano Hugo Chávez e do vocalista da banda Charlie Brown Jr, o Chorão, tiveram elementos que claramente indicam a essa duplicidade.

“Amado por uns, odiado por outros Chávez assumiu-se desde cedo como uma figura pouco consensual dentro e fora do país”, dizia a notícia no canal Euronews. Duas imagens, no entanto, chamaram a minha atenção: a multidão reunida em Caracas para homenagear o líder e os venezuelanos residentes nos Estados Unidos que saíram às ruas para comemorar a morte do inimigo político.

Neste segundo caso, creio que quando se assume publicamente que a morte de alguém é digna de ser celebrada, o respeito e a consideração pelo outro, que deveriam ser valores maiores, ficam esquecidos perante a prevalência das diferenças entre os grupos sociais.  Chávez foi um líder que emergiu na América Latina como o presidente Lula para lutar pelo fim da pobreza, uma meta que muitas vezes incomoda o pensamento conservador.

No caso do músico, a situação em que foi encontrado seu apartamento dá indícios do estado emocional delicado pelo qual passava, uma espécie de outro lado da vida, marcado pela depressão e desconhecido de pessoas próximas como Marcão, o guitarrista da banda: “Ele estava passando por um mau momento, mas era uma fortaleza, não imaginávamos mesmo. Mas ele é um cara imortal, pois deixou o seu legado marcado”, afirmou ao portal Terra.

Bolaño mistura realidade e ficção em novela sobre a ditadura de Pinhochet(foto: Jerry Bauer/politiken.dk)

Bolaño mistura realidade e ficção em novela sobre a ditadura de Pinhochet
(foto: Jerry Bauer/politiken.dk)

O enfoque na duplicidade da vida e da personalidade é o que também marca a novela ‘Estrela distante’, do escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003). O livro foi lançado em 1996, na fase de prosa do escritor, que se sentia mais à vontade como poeta. De qualquer modo, Bolaño é um grande nome da literatura latino-americana.

Em ‘Estrela distante’, ele mistura realidade e ficção para construir uma metáfora em torno do golpe militar no país em 1973, que instaurou a ditadura de Augusto Pinochet e derrubou o presidente Salvador Allende, um líder progressista que materializava a utopia da esquerda naquele momento, como chegou a acontecer também no Brasil com o governo de João Goulart, deposto pelo golpe militar de 1964.

O personagem central do livro é um duplo: ele é o poeta Alberto Ruiz-Tagle, que atrai a atenção das moças nas oficinas literárias, e o exímio aviador Carlos Wieder, que escreve poesias com a fumaça de suas acrobacias no céu, fazendo isso a partir do início da ditadura. Aliás, todos os personagens desse livro têm um caráter duplo, como o leitor poderá notar.

Estrela distante,

Roberto Bolaño, tradução de Bernardo Ajzenberg, Companhia das Letras, 2009, SP, 143 págs.

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