Histórias do quarto planeta

Bradbury em 1975: autor é referência em ficção científica (foto: Alan Light)

Bradbury em 1975: autor é referência em ficção científica (foto: Alan Light)

Quase toda vez que encontro um bom livro fico perguntando o quanto é válido classificá-lo em gêneros literários, como romance, novela, conto, fábula, epopeia, prosa, crônica, enfim. O fato é que muitas das grandes histórias desafiam essas categorias e transitam entre elas como se quisessem rir dos teóricos e acadêmicos.

É assim que acontece com o excelente ‘As crônicas marcianas’, uma obra clássica do ‘gênero’ (olha ele aí de novo…) ficção científica. É preciso percorrer poucas páginas para perceber que o autor, o escritor norte-americano Ray Bradbury (1920-2012), exercita na narrativa envolvente e fluida, de composição futurista, um lirismo e uma prosa de teor filosófico que desnudam a arrogância humana e suas atrocidades.

O livro foi lançado em 1950 e representa uma das duas obras mais conhecidas do autor; a outra é o romance ‘Fahrenheit 451’, de 1953. ‘As crônicas marcianas’ é organizado em 26 contos com títulos cronológicos, de janeiro de 1999 a outubro de 2026. Cada história tem seus próprios personagens, mas no conjunto dão um panorama do que poderia ser o desafio dos humanos de ocupar Marte, o planeta de duas luas e com um povo de mais força espiritual do que os terráqueos, mas que melancolicamente sucumbe no contato com os humanos.

Os marcianos de Ray Brad têm a pele castanha, estatura baixa e os olhos de moeda amarelados. Eles apresentam uma capacidade comunicativa por força telepática e têm tamanho poder de imaginação que podem transformar a realidade à sua volta. São capazes também de ver a verdade do outro, sem se deixar ludibriar por mentiras.

Os humanos fazem várias tentativas de chegar a Marte. Em uma delas, aguardam banda de música ao sair do foguete e querem ser carregados nos ombros dos marcianos como heróis, mas acabam num hospício e percebem que os loucos do outro povo têm grande energia mental. “Eles transferem a insanidade deles para nós, de modo que também enxergamos as alucinações deles”, afirma o pretenso astronauta colonizador.

Em outra expedição ao quarto planeta do Sistema Solar (a Terra é o terceiro), os visitantes encontram, em vez de marcianos, seus parentes já mortos na Terra, que explicam ter conquistado uma segunda chance de viver. Mas isso é apenas uma ilusão de realidade que os marcianos projetam para os humanos, tornando-os alvos fáceis em meio à atmosfera carregada de emoções do passado. Nesse episódio, fica patente o desejo do autor de criticar a incapacidade do ser humano de perceber o outro, com sua permanente vontade de se colocar no centro do universo.

 

Ray Bradbury - capa2As crônicas marcianas,

Ray Bradbury, tradução de Ana Ban, editora Globo, SP, 2006, 302 págs.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s