Contra a ditadura do capital

Caros leitores,

Segue abaixo a íntegra da entrevista do blog Livros & Ideias com o escritor Fabio da Silva Barbosa, que está lançando o livro de contos ‘Escritos malditos de uma realidade insana’ (editora Lamparina Luminosa):

O livro pode ser comprado somente no site da editora Lamparina Luminosa?

Sim, a editora está fazendo essa parte de distribuição do material.

Haverá edição em papel?

Por enquanto trabalharemos apenas a versão digital, mas estamos buscando parcerias para conseguir a grana e mandar imprimir. A Lamparina é um projeto que está produzindo com muita garra e dando oportunidade ao novo, mas ainda não tem uma grande estrutura que permita sair imprimindo todos os materiais que chegam até ela.

Os contos do livro trazem histórias sobre prostitutas, bêbados, meliantes, moradores de rua, enfim, qual a importância de escrever histórias sobre o mundo marginal?

Fabio: ‘De todos os tipos de loucura, o caos social em que vivemos é o mais absurdo e nocivo’

Fabio: ‘De todos os tipos de loucura, o caos social em que vivemos é o mais absurdo e nocivo’ (foto: divulgação)

É o retrato de uma expressiva parcela da população. Embora tratados como minorias, os marginalizados formam a verdadeira maioria. É que eles são divididos em grupos e subgrupos. Mas junta tudo aí para ver. Junta os mendigos, as prostitutas, os bêbados, os drogados, os loucos, os homossexuais, os favelados, os presidiários e todas as classes que são ignoradas, lançadas à margem, por uma minoria privilegiada. Até dentro da classe média se encontram essas figuras. Digo mais: até dentro das classes privilegiadas. Ou você nunca conheceu um filhinho de papai que era um puta viciado, ou um cara que não se ajustou ao que lhe foi oferecido, a ovelha negra da família, lançado à margem de seu grupo social? O problema é que, como vivemos na ditadura do capital, o playboy é pego com um pó e o pai vai lá e solta, já o cara que mora na favela tem uma possibilidade muito maior de passar por constrangimentos incríveis mesmo quando está simplesmente voltando do trabalho. O filhinho de papai nunca vai ter de passar pela situação de um policial com o pé na porta da casa dele no meio da noite para fazer uma busca com toda truculência possível, mas ele também será marginalizado pelos parentes e vizinhos. O que existe são níveis diferentes de marginalização. Essa sociedade está encharcada de preconceitos e o preconceito é algo que sempre lança os indivíduos à margem. Um homem bêbado sofre menos preconceito que uma mulher no mesmo estado de embriaguez. Digo até que corre menos riscos, pois dificilmente sofrerá alguma forma de abuso sexual, por exemplo. Lógico que me concentro mais nos extremamente marginalizados, os que estão realmente à margem de tudo, pois são os que carecem de qualquer aparato que os apoie e são maltratados de toda forma possível. Um cara que nasceu em uma família pobre será sabotado desde a infância. Ele irá comer o que conseguir, irá ter acesso a um péssimo sistema de saúde, a uma educação precária… E por aí vai. Se a gente não fala nesse tipo de assunto, parece que está tudo bem. Tem gente que faz de conta que vive na Disneylândia.

Gostaria que você falasse também sobre dois temas recorrentes na literatura: loucura e morte. Como esses temas afetam a sua produção?

Afetam de forma direta e contundente. Existe loucura maior do que o mundo em que vivemos? Grandes empresários, verdadeiros milionários, botam famílias inteiras no olho da rua e ainda são apoiados pelas ferramentas do sistema que deveriam estar protegendo a população. Uma minoria desfruta de privilégios enquanto a grande maioria passa por privações inconcebíveis. Tem gente que nunca soube o que é ter água e esgoto em casa, morando no morro ao lado de uma grande churrascaria, com carros de luxo parando na porta. E ainda tem quem fique arrumando argumento para dizer que isso tá certo. Como pode? Nosso alimento vem cheio de agrotóxicos e mesmo assim eles continuam liberando novos tipos de agrotóxicos. De todos os tipos de loucura, o caos social em que vivemos é o mais absurdo e nocivo. E o pior é que há quem trate todo esse inferno como a única forma possível, o único caminho… Realmente parecem estar todos insanos. Mas sabemos bem que isso não é à toa. As pessoas vêm passando há muito tempo por um processo de alienação e comodismo que não poderia dar em outra coisa. Quanto à morte… É o que há de certo na vida. Ninguém sai vivo daqui. A diferença é como e quando se morre. Assuntos que nos cercam a todo tempo, como esses, não têm como ficar de fora. A não ser que feche meus olhos e faça de conta que é tudo mentira, crie meu mundo de faz de conta. Algumas pessoas fazem essa opção e se transformam em uma espécie de autista voluntário.

Num dos contos você toca na questão da necrofilia. É claro que mexer com tabus é um papel que é da literatura, mas você sente que o leitor quer saber desses temas? 

Sempre digo que se fosse pensar nas pessoas, do que elas gostam, o que elas querem, o que elas merecem… Daí eu não fazia nada. Escrevo porque gosto e preciso. É a forma que encontro para me comunicar, passar uma ideia, registrar o que os tidos como normais tentam ignorar. Quando estou trabalhando num escrito e chego ao ponto em que acho estar bom, para mim está bom e pronto. Quem se preocupa com aceitação do público faz um trabalho comercial, só para vender. O cara já faz planejando algo de fácil digestão, para agradar a maioria massificada. Se bobear faz até uma pesquisa de mercado para ver o que está na onda. Daí você pode pensar: ‘’Mas então por que publicar? Se você não faz pensando no leitor, é melhor escrever e guardar na gaveta.” Não, nada disso. Cada ser humano é único, mas existem pontos em comum. Sempre que se escreve, ou se desempenha qualquer outra atividade intelectual e criativa de forma sincera, aquela mensagem vai sair por aí e um belo dia começa a tocar em outros seres que estão vibrando na mesma onda, nos tais pontos em comum. E aí se faz a comunicação. A necrofilia é um assunto como outro qualquer e como qualquer outro merece ser levantado, discutido e conhecido.

Qual o perfil dos seus leitores?

Nunca tracei um perfil, mas pensando rapidamente na galera que acompanha meu trabalho e tive oportunidade de conhecer poderia dizer que são pessoas inconformadas e insatisfeitas com a situação das coisas. São pessoas que não querem ser apenas uma engrenagem nessa grande máquina de moer carne.

E o processo de composição: como surgem as suas histórias?

Elas surgem da observação do dia a dia, de uma conversa de bar, de situações vividas… Das formas mais variadas possíveis. Depois vou passando tudo para o papel e viajando ao mesmo tempo. O resultado final é a soma do fato com a minha viagem. Acho que podemos dizer que é a mistura do meu lado jornalista com meu lado escritor. Mas também tem a mistura de várias coisas, vários personagens, fatos diferentes que viram um. Na verdade, cada trabalho é um trabalho. Tem uns que parecem vir não sei de onde.

Você concorda que a literatura tem cada vez menos importância nos dias de hoje?

Acho que ela ainda tem seu público. O caso é que hoje a literatura divide espaço com vários outros meios de comunicação. Antigamente era só a escrita, depois veio o rádio, a televisão, até chegar à internet com todas as suas possibilidades.  A meu ver, o problema é que as grandes editoras não dão espaço para o novo e só querem ficar reproduzindo o que é venda certa, o que já tem aceitação. Isso impede a oxigenação da coisa e fica tudo meio estagnado, sempre girando em torno dos mesmos nomes. Imagina se tivesse sido sempre assim. Quantos grandes nomes ficariam sem ter a oportunidade de repartir seu trabalho com as pessoas. Nós conheceríamos apenas os primeiros. Outro fato é que tem uma galera querendo ser escritor, mas não tem o hábito da leitura. Acho que todo mundo tem que se expressar mesmo. Se não for escrevendo, que seja de outra forma. Mas esses escritores precisam ler também. E não adianta ficar lendo só os consagrados, tem de correr atrás das novidades para conhecer novas possibilidades e ampliar o horizonte.

Lendo a sua biografia, vejo que você desenvolve um trabalho comunitário. Como isso se relaciona com a sua produção literária?

Na verdade, meu trabalho dentro das comunidades é mais focado no jornalismo. Talvez haja a relação de estar lidando com o excluído, com o marginalizado. É um trabalho que também lida muito com o questionamento. Afinal, não tem como não questionar quando nos deparamos com o pessoal que faz tudo funcionar e vemos que eles estão vivendo sem direito a nada. É ali que mora a costureira, a passadeira, o pedreiro, o motorista e vai saber mais quem. Sem eles nada funciona. Você imagina a Xuxa limpando o esgoto da casa dela? Aí eu fico lembrando aquela lenda de que se trabalharmos bastante podemos ganhar dinheiro proporcionalmente, que todos podem ficar ricos. Em uma favela a grande maioria levanta cedo para trabalhar e só chega em casa no final da tarde ou à noite. O sofrimento desse povo, as mentiras que sustentam o sistema… Tudo isso também está na minha produção de livros e de zines.

Onde encontrar: www.lamparinaluminosa.com

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