A falta que a História faz

O golpe militar de 1964, que destituiu o governo de João Goulart e jogou por terra a utopia das esquerdas nos anos 60, voltou à baila nos últimos dias menos por conta de seus 49 anos, registrados em 31 de março, e mais em razão da estreia do documentário ‘O dia que durou 21 anos’, do diretor Camilo Tavares.

Parece mentira, mas foram necessárias quase cinco décadas para que uma produção viesse a público dizimar mitos, comprovando com documentos a participação dos Estados Unidos na articulação do golpe que submeteu o País a um regime de exceção e cerceou liberdades individuais.

Tudo funcionou como se a história tivesse sido negada ao público por todos esses anos. Eu mesmo já ouvi uma pessoa dizer que “esse negócio de Estados Unidos financiarem golpe não passa de lenda”. A melhor resposta para quem acredita em tese de carochinha está nas cenas da mobilização de uma frota naval norte-americana na costa brasileira, pronta para invadir o País caso houvesse resistência aos militares.

Comício de Goulart no Rio desencadeou a ira dos militares e o golpe (foto: divulgação)

Comício de Goulart no Rio desencadeou a ira dos militares e o golpe (foto: divulgação)

Mas também chamou a atenção a manipulação da informação orquestrada pelo embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon, para produzir no público um estado de espírito contra o que seria o “comunismo” das reformas pretendidas por Goulart, o que em última instância levou a população a sair às ruas para comemorar o golpe naquele fatídico dia.

Com o filme, fica evidente que a nossa memória tem sido alvo de deformações factuais em nome de objetivos políticos. Isso equivale a negar ao público o conhecimento da História, área do conhecimento que anda em baixa desde que os mercados de consumo e a tecnologia da informação tomaram conta de nossas vidas.

Ter “consciência histórica” é um direito do cidadão que é subliminarmente negado quando um fato é distorcido. Conhecer História permite ir mais além do que simplesmente ter espírito crítico; permite criar identidade e perceber que desejos e ideais não podem ser trocados por objetos de consumo ou qualquer baboseira.

O impacto do documentário permitiu que eu encontrasse na internet, livre para cópia, um bom livro sobre manipulação em torno do golpe. ‘Versões e ficções: o sequestro da história’, de vários autores que participaram da resistência, reúne 22 artigos que debatem a questão com foco no filme ‘O que é isso, companheiro?’, de Bruno Barreto, com base livro homônimo do jornalista Fernando Gabeira. Mesmo para quem não assistiu ao filme, repleto de inverdades e clichês, o livro coloca os pingos nos ‘is’, dando um panorama do que foi a atuação da luta armada durante o regime militar.

 

versões e ficções - capaVersões e ficções: o sequestro da história,

Vários autores, editora Fundação Perseu Abramo, SP, 1997, 230 págs.

Onde encontrar: www.fpabramo.org.br/bibliotecadigital

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