O Velho Marinheiro e as lagartixas

Orlando Silveira*

O dia, claro, tem 24 horas, mas só para os medíocres, para os que vivem aferrados ao passado, para os que não têm pique para enfrentar o mundo moderno. Este, definitivamente, não era o caso do marido da melhor amiga da neta do Velho Marinheiro. O homem – a se tomar como verídicas 5% das afirmações da esposa deslumbrada – é um azougue pós-moderno. Joga bem em todas as posições, toca diversos instrumentos, faz e acontece por onde passa. Seu dia vale uma semana, rende mais que bolinho de chuva.

Sem que ninguém lhe perguntasse detalhes – muito menos o Velho Marinheiro, proibido pela família de tecer qualquer comentário na frente de visitas –, a moça passou a emendar um elogio no outro, de modo que a conversa deixou de ser conversa para se transformar numa espécie de embolada em homenagem a seu marido, que ali ninguém tinha o prazer de conhecer:

— Ele é como o tempo: não para nunca. Antes de sair para o trabalho, corre por uma hora, lê três jornais enquanto toma o café da manhã, corre os olhos na agenda do dia, dispara diversos telefonemas, verifica os e-mails e as postagens nas redes sociais. Aproveita o tempo perdido no trânsito para estudar Francês. Ele fala, fluentemente, seis línguas, inclusive tupi-guarani. Não sei como suporta uma rotina dessas. Quase todos os dias, tem almoço de negócio. Não abre mão da happy hour com os amigos e clientes…

A neta do Velho Lobo do Mar percebendo sua inquietação crescente sugere que ele vá tirar uma soneca no quarto. Sua proposta é duramente rechaçada com um muxoxo equivalente ao nosso “daqui ninguém me tira”. A neta sabe o quão é imprudente contrariar o avô quando ele põe o calcanhar direito em cima da cadeira e passa a caçar o bicho-de-pé imaginário.

A moça retomou, com o entusiasmo de sempre, sua embolada de vida curta:

— E sabem que meu marido ainda encontra tempo para fazer cursos e mais cursos? Não sei como tem disposição para ler tantos livros ao mesmo tempo, cozinhar, cuidar do jardim, levar os cães para passear, cuidar dos filhos, jogar frescobol… Haja fôlego. Temos uma vida social muito ativa também. E o danado é vaidooooso que só. É metrossexual…

— E ele comparece quando? – interrompeu o Velho Marinheiro, abandonando a mudez a que estava obrigado a manter na frente de visitas.

Ante o silêncio sepulcral e do desconforto evidente, olhou para o lado, olhou para o outro, mirou o teto, pediu licença e saiu:

— Vou cochilar no meu quarto. Lá não tem lagartixas.

* Orlando Silveira é jornalista e colaborador do blog Livros & Ideias

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