Chutando os tomates

Orlando Silveira*

Comes e bebes andam pela hora da morte. O pessoal tem fugido do tomate como genro de sogra. As madames, sempre fazendo dieta, evitam o fruto – e ainda aproveitam a carestia pra se exibir e fazer seu discurso politicamente correto. “Pagar esse preço? Nem pensar, meu bem. Dinheiro não me falta, claro. Mas sou solidária com os pobres”, discursa no elevador a perua do 13º andar. Os pobres, sem ter com quem ser solidários e sem dinheiro, miram sua ira no japonês da quitanda: “É um ladrão, sempre foi”.

Enquanto isso, os economistas vivem momentos de glória. Não chegam a ameaçar a liderança, em termos de popularidade, do pastor raivoso e de sua cara metade. Mas gastam mais tempo dando entrevistas e explicações que ninguém entende, exceto eles próprios, que fazendo contas. É uma gente valorosa. Tem sempre explicação pra tudo, em especial para o que não entende. O governo faz como Maria Chiquinha: embrenha-se no mato, em busca de alguma medida prazerosa que evite que a culpa do preço do tomate recaia sobre a presidenta e seus dois neurônios. Cabe ao ministro da Fazenda fazer o papel de mensageiro de um tempo ensolarado que, se depender de sua incompetência, não virá.

Os mais entendidos colocam a culpa dos preços altos na tal de sazonalidade, que o frentista do posto está convencido de que só pode ser alguma sacanagem do prefeito. Os mais entendidos ainda vão além. “Não podemos nos esquecer de que a inflação de demanda e a sazonalidade não explicam tudo. Sem uma reforma tributária pra valer e mais investimentos em logística e em infraestrutura, não há quem dê jeito no preço do tomate”, garantem os especialistas. Dentre os que não entendem nada desse mundo fascinante da macroeconomia, há quem defenda a solução por decreto: “É só incluir o tomate na cesta básica. A ‘mulher’ não mandou baixar o preço dos absorventes?”

O dono da banca de jornal – tido como um dos homens mais bem informados do bairro, pelo acesso que tem às informações, vive cercado de periódicos – dá de ombros às explicações que, segundo ele, não explicam nada:

— Querido, a coisa é simples. O governo tem que aumentar o preço das mercadorias pra pagar os campos de futebol que está fazendo pra Copa do Mundo. Em vez de chutar a bola, ele chuta os tomates, os nossos.

* Orlando Silveira é jornalista – e-mail: orlandosilveira@uol.com.br

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