O ideário vivo do Major Quaresma

Os dez anos de cotas raciais nas universidades e os estudantes já formados, trabalhando como médicos, advogados e tantas outras profissões, são uma chama que mantém vivo o espírito do Major Quaresma, protagonista do mais famoso romance de Lima Barreto (1881-1922), presença obrigatória nas aulas de literatura e em vestibulares.

A conexão entre política de cotas e o romance ‘O Triste Fim de Policarpo Quaresma’ é inevitável porque o Major é alguém que dedica sua vida ao exercício de um amor à pátria, sonhando com um país solidário, que seria inclusivo e receptivo às diferenças, como mostram querer os governos do Brasil e de outros países da América do Sul atualmente.

O romance está disponível para cópia, sem custo, no site Domínio Público, mantido pelo Ministério da Educação. Aliás, toda a bibliografia de Lima Barreto pode ser acessada nessa página, que reúne 31 títulos, entre eles, ícones da produção do escritor pré-modernista, como ‘O Cemitério dos Vivos’, ‘Os Bruzundangas’ e ‘Numa e Ninfa’.

Paulo José (Policarpo Quaresma) e Giulia Gam (Olga) atuam no filme de 1998 (foto: divulgação)

Paulo José (Policarpo Quaresma) e Giulia Gam (Olga) atuam no filme de 1998 (foto: divulgação)

A utopia de Quaresma, de buscar um país socialmente justo e com identidade nacional, é algo que no romance se mostra inviável. Em seu afã ufanista, Quaresma vai ao parlamento pedir que o Brasil adote o tupi como língua oficial, e a partir daí segue uma saga patética e quixotesca, que pouco a pouco o leva ao isolamento. O romance é de 1911, e seu contexto histórico se situa no segundo governo republicano, de Floriano Peixoto, que presidiu o País de 1891 a 1894.

Praticamente todo o esforço de Quaresma consistia em viver de um modo brasileiro, em um país que tentava se modernizar com valores importados, e era conduzido com mão de ferro, apesar da mudança política.

Do ponto de vista da literatura, a abordagem da identidade nacional desenhada por Barreto soa como resposta à identidade forjada e idealizada pelos escritores do período romântico, como José de Alencar (1829-1877), que sustentavam o mito da convivência pacífica na formação da nossa sociedade.

Quaresma, ao contrário, vislumbrava a construção de uma identidade nacional ao lado dos excluídos e marginalizados, o que significava remar contra a maré, contra os interesses das oligarquias que dominavam o País e sufocavam o desejo de distribuição de riqueza.

Depois de ler o romance, vale também ver no You Tube o filme ‘Policarpo Quaresma, Herói do Brasil’, de 1998, dirigido por Paulo Thiago, com base no romance de Lima Barreto. Uma cena que marca o filme é um diálogo entre Quaresma e Floriano, no qual o herói defende a educação como um caminho para a construção do País, algo que o presidente mostra não fazer sentido naquele momento.  Hoje, no entanto, essa retórica de Quaresma se revela um tanto quanto atual.

O Triste Fim de Policarpo Quaresma,

Lima Barreto, Fundação Biblioteca Nacional, RJ, 104 págs.

Onde encontrar: http://www.dominiopublico.gov.br

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