Trauma não se discute

— Pois é, doutor: relutei muito antes de vir aqui. Sempre achei análise uma bobagem. Coisa de quem gasta uma fortuna para não resolver nada. Sou pragmática. Quero resultados.

— E por que resolveu vir até aqui, agora?

— Porque me dei conta de que, sozinha, já não sei lidar com meu trauma.

— Estou aqui para ouvi-la, ajudá-la. Fale, fique a vontade. Sinta-se em casa.

— Sou bem sucedida profissionalmente. Sou formada, pós-graduada, doutorada, calejada por cursos e mais cursos disso e daquilo. Falo várias línguas. Fluentemente. É difícil encontrar um assunto sobre o qual eu não tenha posições firmes. Passei em vários concursos. Ascendi nos empregos por mérito, apenas e tão somente por mérito. Ganho muito bem, bota bem nisso. É que…

— Que maravilha! É admirável encontrar uma pessoa como você, com tantas qualidades. Não entendo a razão de trauma, complexo ou algo parecido.

— O senhor sabe o que é passar a adolescência, a juventude e a idade madura sem nunca ter sido convidada para fazer o teste do sofá, sem nunca ter sido chamada de “gostosa” na rua, sem nunca ter recebido um mísero assovio? Se não sabe, fique sabendo: é uma m…

orlando3Orlando Silveira

orlandosilveira@uol.com.br

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4 pensamentos sobre “Trauma não se discute

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