Quando o sonho cai por terra

Norman Mailer chocou os leitores com romance de 1964

Norman Mailer chocou os leitores com romance de 1964

Desde que a crise econômica internacional se agravou em 2008, passou a fazer bastante sentido criticar as sociedades norte-americana e europeia. O modelo de desenvolvimento com base no neoliberalismo, que permitiu às empresas, sobretudo as financeiras, concentrar renda de forma absurda, caiu por terra e os governos foram chamados a prestar socorro.

Somada a isso a crise política deflagrada pelos ataques de 11 de setembro de 2001, temos um cenário em que a promessa de prosperidade nos países de Primeiro Mundo no período pós-guerra já não existe. O recente ataque a bombas em Boston, a persistente crise entre Israel e Palestina, as guerras no Iraque e Afeganistão, o conflito na Síria e agora a crise com a Coreia do Norte mostram que pouco tem sido feito para aliviar as tensões e adotar políticas que se pautem menos pelo preconceito e mais pela tolerância.

Renato Russo, ex-líder da banda Legião Urbana, tinha razão: “Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente”, diz a letra de ‘Índios’, uma de suas músicas. Doente, mas que ainda se encanta com as promessas de consumo, sustentando o sonho de viver ao estilo dos norte-americanos. A doença é o outro lado do sonho, que redundou em uma sociedade obcecada por sexo e violência, como mostra o envolvente romance de Norman Mailer (1923-2007), ‘Um sonho americano’, escrito em 1964.

A decadência do modelo de vida dos países ricos é algo escancarado hoje, mas que já era patente nos idos dos anos 60 e 70, sobretudo nos círculos de escritores da geração beat nos Estados Unidos, como é o caso de Mailer, e dos existencialistas da Europa, como Jean-Paul Sartre.

Em ‘Um sonho americano’, o protagonista Stephen Rojack é um ex-combatente da Segunda Guerra Mundial e ex-deputado, professor universitário e apresentador de um programa de TV. Seu sucesso é emoldurado por um casamento com uma dama da alta sociedade. Mas o fato é que nos bastidores Rojack mantém um casamento agressivo e deplorável até que numa noite ele perde o controle e mata a mulher, joga-a pela janela de um confortável apartamento em Nova York para caracterizar suicídio e aí mergulha em uma viagem de violência, sexo e drogas que traz à tona os desejos sufocados pelas aparências que a civilização o obriga a manter.

A obsessão e a paranoia permeiam os personagens do livro. Quando foi lançada, a história chocou a sociedade americana, pois há momentos de prática de incesto no texto, o que deixa o leitor meio atormentado, por estar em um terreno onde não há sentido. Um aspecto interessante é que a história se pauta por registrar os cheiros das pessoas, os cheiros e seus estados de espírito, o que revela que Mailer navega em águas represadas da personalidade, construindo seu discurso com elementos em geral não verbalizados.

 

Norman Mailer - capa2Um sonho americano,

Norman Mailer, tradução de Lia Wyler, editora L&PM, Porto Alegre (RS), 2007, 276 págs.

Foto: Carl Van Vechten

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