Abrace seu inimigo

O inferno são os outros, já dizia o filósofo. Entre os amigos que escolhemos e a família que toleramos estão os chatos de galocha com quem somos obrigados a conviver. É neste último grupo que, com certeza, estão pessoas preciosíssimas para nossa vida. Embora não se chegue a essa conclusão na hora da fúria, quando o indivíduo está na sua frente proferindo baboseiras, no momento em que você está em paz, refletindo sobre sua personalidade, pode perceber a força positiva que o inferno-outro te dá para que você seja o que escolheu ser. Uma construção de si, um sujeito definido.

Nos definimos olhando para o inimigo, estabelecendo negações com ele e percebendo a controvérsia entre eu e o ele. Ele é um monstro e eu tenho razão. Ele é tudo o que eu não seria, faz tudo o que eu não faria. Tais afirmações, se não parecem úteis para pacificação mundial, ao menos nos ajudam a delinear nosso ser, também nos auxiliando na escolha da melhor maneira de o conduzirmos nos complexos labirintos de dúvidas, numa era que apresenta tantas informações, mas não muitas respostas – ao menos às questões essenciais.

Séculos se passaram e ninguém descobriu resposta para a pergunta “quem sou eu”. Sinto lhe dizer, caro. Dificilmente será eu ou você, nesse seculozinho mixuruca de desfragmentações, que responderemos à questão. Acho que já é uma vitória se conseguirmos definir o que não queremos, assim como a personagem Vicky, do filme Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen. Ao mesmo tempo inquieta com o destino de seus sonhos, mas feliz com o proveito que consegue tirar do presente, Vicky, sabendo apenas o que não deseja para a sua vida, acaba sorrindo mais, vivendo mais e fazendo mais amor que sua sistemática colega Cristina, bela e pragmática, embora sempre triste e insatisfeita.

Então, o que é que você está esperando? Amanhã, não digo para que você dê um abraço apertado em seu inimigo, o que poderia acabar com a utilidade dele para você. Mas que tal olhá-lo de uma forma não convencional? Compreender o outro, bem diferente de aceitá-lo, pode ser um caminho para circular pelo inferno sem se queimar com as labaredas.

 

Marina Moura2

Marina Moura

E-mail: mmourabarreto@gmail.com

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