Cerveja com amendoim

Estava aborrecido com aquele livro chatíssimo que tratava sobre algum tipo de verdade. Nem lembro bem porque estava perdendo tempo com mais aquele intelectualzinho arrogante. Era do tipo que sabe todas as respostas e o jeito certo de fazer qualquer tipo de coisa. Deve ser doutor ou qualquer outra merda do gênero. Pedi mais uma cerveja e um pacote de amendoins. Coloquei a cerveja no copo e despejei alguns amendoins dentro. Era sempre um bailado interessante. Alguns subiam, outros desciam e tinham aqueles que subiam e desciam. Apreciei um pouco a coreografia antes de voltar a leitura.

Alguns parágrafos e anotações depois, percebi uma movimentação estranha no boteco. Ergui os olhos e me deparei com um carro da polícia estacionado no meio fio. Carlinhos, o cara que escreve jogo de bicho na mesinha dos fundos, estava sendo preso. Pelo que entendi, uma tal delegada estava na cidade e os canas tinham de levar uma certa quantidade de gente presa. Carlinhos não criou maiores problemas. Daqui a pouco estaria de volta. Aproveitei a pausa e olhei como estavam meus amendoins. Dei um gole cuidadoso para não engolir nenhum. O segredo era só comer no final. Tinha de ficar na conserva. Ali o amendoim temperava a bebida, enquanto a bebida temperava o amendoim. Depositei o copo na mesa e procurei o parágrafo onde tinha parado.

– Que porra é essa aí, rapaz? Ô engraçadinho… É com você mesmo que estou falando.

O polícia tava falando comigo. O que seria dessa vez? Será que ainda faltava um para ser preso? Do que me acusariam? De estar lendo aquela merda na mesa, do lado de fora do bar? Ler merda em via pública agora é crime? Também, o que poderia esperar? Um sujeito que joga o tempo de vida fora com uma bosta daquelas merecia mesmo uns tapas.

– …

– Levanta! Levanta! Encosta na parede!

– Mas…

– Encosta aí, caralho!!!

Depois da geral, com a maior ignorância possível, me virou de frente e começou a gritar na minha cara. Pior que ficar olhando aquela caricatura bizarra durante os berros, só mesmo os pingos de saliva voando na minha direção. Tentei usar da educação e explicar que as palavras não estavam saindo de forma legível de sua boca.

– Não estou entendendo… Qual é o problema?

– O problema… Seu filho da puta… Tá pensando que sou idiota?

Parece que tinha lido meu pensamento. Foi exatamente isso que pensei. Mesmo tentando imaginar algum fundo de lógica na situação, pude confirmar minhas suspeitas no momento em que ele pegou meu copo de cerveja de forma raivosa e ralhou.

– O que é isso aqui? Me diz… Que porra é essa? Virou bagunça? – Ou foi algo mais ou menos assim que saía daquela boca arreganhada.

– Desculpe, mas não sabia que a cerveja havia sido proibida.

Não resisti. A situação em si pedia um deboche. Aquele havia sido o sinal, o é agora. Quando vi, já tinha falado. Mas o troco veio de imediato. Uma bofetada descomunal me atirou contra a mesa. Arrastei o que tinha pela frente em minha queda. Esqueci que essa rapaziada não costuma ter bom humor.

– Levanta, porra.

– Calma… Que isso…?

– É exatamente o que eu quero saber. O que é isso? – O desgraçado quase enfiava o copo na minha cara.

– Cerveja, porra. É um copo com cerveja.

– Tô falando dessas bolinhas dentro do copo.

– Ahhhh… Isso… – Suspirei entre o aliviado e o incrédulo – Isso é amendoim.

– Amendoim… – Soco no estômago. – Tá me achando com cara de trouxa mesmo, né?

– Mas é amendoim… Olha… Ainda tem mais no saquinho… Deve ter caído pelo chão quando derrubei a mesa.

Aí… – Berrou para a viatura. – Manda o cara que escreve o jogo se espremer. Vai entrar mais um.

– Tá viajando no amendoim, né?

A voz do rastafári alemão dono do botequim me trouxe de volta para aquela mesa. Os amendoins ainda bailavam no copo, diante dos meus olhos. Ouvi os primeiros acordes de Redemption Song e só aí percebi que meu amigo rasta estava sentado ao meu lado com o violão. Até chegar o próximo freguês, iria rolar um som. Dei um gole na cerva e depositei o copo sobre a mesa. Empurrei o livro para um canto. Não ia mais me desgastar com isso.

fsb-12Fabio da Silva Barbosa

E-mail: fsb1975@yahoo.com.br

 

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