Ninguém é perfeito, ainda bem

Contar vantagem é uma coisa muito chata, ficar perto de pessoas cujo único discurso seja o ganhei, venci, eu sei, eu também, é pior ainda. Deus me livre de um mundo sem as imperfeições que nos causam riso e momentos de descontração em meio à dureza cotidiana. E cá para nós: vamos admitir que todos queremos ser acolhidos, e por isso mesmo estar diante das confissões de um ser redondamente perfeito nos faz refletir sobre o que nos falta.

Estamos todos em um infinito processo de descobertas sobre nós e sobre os outros. Quem conta vantagem tende a achar que alcançou, senão a Verdade, a condição de Super-homem proposta por Nietzsche, nosso querido filósofo que, à medida em que ficava supostamente mais sábio e próximo da já mencionada Verdade, proporcionalmente, sabemos, foi ficando também mais isolado, adoecido e triste.

O que é mais importante, a inteligência ou a felicidade? Já que tocamos no ponto, disparo outra pergunta: a inteligência traz a felicidade? Oras, para mim a inteligência é uma ferramenta – que por sinal aprendemos a utilizar gradativamente, assim como outras ferramentas, da internet às emoções, passando ainda pela razão. É mais fácil e mais tosco pender aos extremos.

Procurando inteligenzia, não encontro inteligenzia, quem esconde inteligenzia, me responde inteligenzia, não é assim que cantava o Lobão? Tem horas que a gente chama e ela não vem, têm dias que num improvável cruzamento de nossos sistemas mentais acordamos afiadinhos e dizemos que estamos “inspirados”. Mas que não sejamos forçados a sermos sempre assim, porque é aí que se cria uma obrigação cruel e inexequível. O que tem a expectativa de que se cumpra, frustra-se; assim como se frustra quem não atende à expectativa.

O cantor Chico Buarque diz-se entristecido e quase desesperado ao vivenciar fase em que não conseguia compor. Seu hiato durou anos – e, se não me engano, foi acontecer bem quando ele estava junto do mulherão Marieta Severo.

O processo de criação do cantor baiano Dorival Caymmi é conhecido pela forma a la vonté de ser, guiado pelo tempo da inteligência do artista. São conhecidas suas histórias out of time, o artista sentado na sua Bahia esperando as canções virem. “Dori” conta sobre sua obra:

“Aconteceu naturalmente. Aconteceu por causa daquela preguiça gostosa de ver o mar, o horizonte, os azuis se encontrando. Aquela grandeza romântica, o nascer do sol…”.

Tem hora que o inteligente é saber sentir, deixar-se ir, apenas ser.

 

Marina Moura2Marina Moura

E-mail: mmourabarreto@gmail.com

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