Moradia versus burocracia

Lima Barreto explorou a psicologia do funcionário público

Lima Barreto explorou a psicologia do funcionário público

Bianca leu a notícia no site da Agência Brasil: “Estado e prefeitura de SP lançam programa para criar 20 mil moradias no centro da cidade”. Dizia a notícia: “Os beneficiados deverão ser trabalhadores do centro da capital paulista, que não têm imóveis em seu nome.”

“Opa, tá pra mim”, pensou Bianca, técnica em segurança do trabalho, que mora de aluguel em Interlagos e trabalha em Santa Cecília. Em dias normais, o que quer dizer “com trânsito pesado”, ela gasta três horas para ir e voltar. Tem dia em que ela vai com seu carrinho, que comprou financiado, mas chega a demorar mais do que a opção de trem da CPTM com baldeação para metrô linha amarela e depois vermelha.

Bianca já tinha cadastro na Cohab, a companhia habitacional da prefeitura. Ligou para o número 156 para perguntar do tal programa, anunciado pelo prefeito e pelo governador. Mas disseram que era bom ela fazer cadastro na CDHU, a companhia habitacional do Estado. Agora Bianca se confunde com as siglas e diz para a vizinha, dona Rosária, que já tem cadastro na CDHU, a companhia habitacional da prefeitura.

Bianca visitou o portal da prefeitura e mandou um e-mail para o setor de comunicação, que mandou um e-mail para a Secretaria de Habitação, a Sehab, e mais uma sigla entrou em sua vida. O setor de comunicação dizia: “Segue e-mail do munícipe para análise e demais providências que acharem necessárias”.

Bianca esperou. A Sehab nada disse; com certeza, achou que não era necessário tomar qualquer providência. Bianca então ligou de novo para o serviço 156. Mas a moça que atendeu desta vez nem se mexeu: “Sinto muito, senhora, mas não possuo informações sobre esse assunto” e sugeriu que encaminhasse um e-mail para procentro@prefeitura.sp.gov.br, ou ligasse para 3241-2440 ou 3241-4359 para “talvez” obter informações.

Bianca então pensou na burocracia no poder público. Buscou o assunto na internet e descobriu raízes profundas. No site Brasilianas, da USP, que mantém um arquivo digital com cerca de 3 mil obras de importância histórica, encontrou ‘Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá’, romance de Lima Barreto, de 1919, que relata a amizade de dois funcionários públicos e revela a maneira de ser dos burocratas do povo, que adotam posturas patrimonialistas, pois acham que são proprietários de feudos dentro dos órgãos públicos, e gostam de manter relações de favor.

Bianca começou a ler o romance, mas não desistiu do sonho de moradia. Mandou o tal do e-mail para ‘procentro arroba…’, esperou e recebeu cópia de um e-mail dirigido à Sehab, falando de novo nas tais providências. Bianca espera agora encontrar nova alternativa, pois já não tem para onde correr nessa história em que, aliás, qualquer semelhança entre nomes e fatos não é mera coincidência.

Lima Barreto - capa gonzagaVida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá,
Lima Barreto, Edição da Revista do Brasil, SP, 1919, 213 págs.

Onde Encontrar: www.brasiliana.usp.br

Foto: Divulgação

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