Tristeza e luto pelo desconhecido

Tomar a dor dos outros. A expressão pode ser gesto voluntário e generoso ou pode ser ato egoísta e intrometido. Encontrei certo dia um amigo em minha sala de trabalho e ele bufava, batia com vigor o punho fechado na mesa que era de madeira, ora emputecido, ora triste. Perguntei-lhe o porquê daquilo. O Saramago morreu, disse ele.

Sabendo que este amigo é um entusiasta da difusão cultural, embora não tenha mínima fome pela leitura, peguei ele para a bronca. Muito bravinha mesmo, de mãos na cintura, perguntei-lhe se já havia lido obra do célebre finado, qualquer que fosse. A resposta esperada: não.

É a cara de nossa sociedade: 1. Temer a morte como se alguém soubesse o gosto que ela tem; 2. Lamentar morte de nomes, chorar por ilustres desconhecidos.

Escrevo essas linhas após ler a tese de um colega que identifica as diversas percepções sobre a morte presentes na literatura.

Dentre os excelentes autores que cita, desde o filósofo Montaigne até o escritor Hermann Hesse, escolhi chupinhar Saramago de seu texto para o meu porque lembrei-me da historinha do outro que chorou a morte do autor sem ter visto ao menos a adaptação para filme de ‘Ensaio sobre a cegueira’ – e também porque o trecho abaixo, tirado da tese do colega, que por sua vez tirou-o do ‘Intermitências da Morte’, de Saramago, sintetiza como a existência da morte pode ser de bonita a desejável.

A obra fala sobre uma sociedade que inicialmente pensa-se agraciada pela imortalidade, mudando de ideia ao perceber que o envelhecimento não cessa e a morte não chega nem mesmo àqueles que, gravemente enfermos ou vitimados por acidentes, sofrem. A cidade de mortos-vivos começa a ficar superlotada. Não sobrando espaço nos asilos, seria necessária a utilização de construções para abrigá-las, o que acabou originando: “(…) primeiro bairros, depois cidades, depois metrópoles, ou, usando de palavras mais cruas, cemitérios de vivos onde a fatal e irrenunciável velhice seria cuidada como Deus quisesse, até não se sabe quando, pois os seus dias não teriam fim”.

Há solidariedade. Entristeço pelos mortos na tragédia em Santa Maria, com a perda de entes queridos de minha família, com os mortos em acidentes de estrada.

Mas alguém sabe responder se a morte é mais dura que a vida?

Marina Moura2Marina Moura

E-mail: mmourabarreto@gmail.com

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