O espírito do jogador

Dostoievski - o jogador - retrato

Dostoiévski escreveu o romance ‘O jogador’ em 25 dias

O espírito que anima a pessoa viciada em jogo é quase sempre enigmático. Há famílias que chegam a perder seus bens porque um de seus membros ficou alucinado em uma banca de jogo e não suportou a humilhação de falhar diante da figura ambígua entre Deus e Demônio, que é a figura da Sorte.

Consciência é algo que passa longe da compulsão pelo jogo, que está mais para paixão do que para razão. No caso, uma paixão mórbida. O vício é uma enfermidade que pode levar a pessoa a transgredir as leis de conduta. Outro dia encontrei em um fórum de jogos na Internet o depoimento de um jovem que confessava ter dito ao chefe, durante o expediente, que precisa visitar a avó no hospital, que estava nas últimas – na verdade, ela já havia morrido há dez anos. Tudo isso para ficar em casa jogando Starcraft II.  “Se o jogo for bom mesmo, amanhã nem vou trampar e ligo falando que a velha morreu mesmo e tô no enterro dela”, afirmou.

O caráter do jogo levado às últimas consequências é deletério, destrutivo, como mostra o romance ‘O jogador’, do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881).  Esse romance, de 1866, foi escrito em 25 dias e era exigência de contrato entre Dostoiévski e seu editor. O escritor vivia às voltas com problemas financeiros e criou ‘O jogador’ enquanto concluía o famoso ‘Crime e castigo’, também de 1866. Por conta dessa urgência, o texto traz algumas imperfeições de estilo que o tradutor preserva, como repetições de palavras, mas não deixa de exprimir a genialidade do escritor, que faz uma espécie de psicologia do jogador com teor realista. Dostoiévski também foi viciado em jogo, e essa condição o permite criar um narrador, Aleksei Ivanovitch, que é o próprio escritor falando com propriedade de suas vivências.

A história se passa em uma estação de águas na Alemanha, com nome fictício e perverso de “Roletemburgo”, onde em luxuosos hotéis desfilam os aristocratas que povoam o mundo das roletas.  Ivanovitch é preceptor [educador] da família de um general russo que passa uma temporada na cidade, enquanto aguarda ansiosamente a morte da avó, que deixará uma considerável fortuna como herança. A história central de amor se desenrola entre Ivanovitch e a enteada do general, Polina, que a princípio demonstra total desprezo por seu amante.

Diante da força da paixão, Ivanovitch assume uma posição de escravo e recebe ordens bizarras. O sarcasmo e a ganância percorrem as relações na história de Dostoiévski. Os diálogos são quase sempre ácidos e os personagens, perversos. Trata-se de um retrato realista da época, em que a cultura era permeada por um cinismo e uma arrogância particulares da burguesia daquele momento. No fundo, o escritor aproxima a psicologia do jogador, marcada pelo espírito da incerteza, da alma e identidade do povo russo, em contraste com ingleses e franceses.

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Fiódor Dostoiévski, tradução de Moacir Werneck de Castro, editora Bertrand Brasil, RJ, 1993, 147 págs.

Foto: Divulgação

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