A transação

– Olha aqui, meu irmão. A parada que você pediu tá aí. Agora me dá o dinheiro que não tenho o dia inteiro. – Esse é o Margarina. Um cara muito ferrado na vida. Não servia nem para roubar carteira de velhinho em saída de banco.

– Certo. – Esse sorridente era o cara para quem ele tinha ido entregar algo dentro da mala do carro roubado, que acabava de apresentar. Nunca soube o que tinha naquele porta malas. Drogas, armas… Vai saber. O cara abriu a mala, deu uma boa olhada e continuou com o mesmo sorriso satisfeito.

– Tá vendo. Tá tudo aí. Pera… Que isso? – Margarina tremeu ao ver o cara puxar a arma.

– Olha aqui, seu pedaço de merda… Seu patrão anda de saco cheio de você. Pensamos em te usar como boi de piranha. Afinal, há muito tempo a polícia não mostra serviço. O problema é que na primeira porrada a operação seria toda comprometida.  Conhecemos bem esse tipo de cuzão que você é. Então, como tinha uma dívida para saudar com ele, achei que essa era a hora. Combinamos que você faria essa última entrega e eu te jogaria no lixo.

Outro sujeito, conhecido como Chaveirinho, se aproximou, amarrando as mãos de Margarina e colocando um capuz sobre sua cabeça. Quando ele começou a puxar Margarina, o cara sorridente disparou dois tiros.  Se aproximou e pressionou os furos feitos pelas balas em ambos os joelhos.

– Isso é para não tentar nenhuma gracinha pelo caminho.

Margarina se esticava todo, sentindo uma dor insuportável. Chaveirinho o arrastou até um outro carro que estava estacionado há alguns passos, jogando o corpo na mala. Aproximadamente duas horas depois, a mala se abriu. Margarina foi tirado de forma brusca e encostado no carro. Sentiu os olhos doerem com a luz do Sol ao ser retirado o capuz de uma só vez.  Ainda sem conseguir ver direito, foi virado com força e sentiu uma lâmina entre suas mãos. A corda foi cortada.

– Calma, porra. Aquele sacana destruiu meu joelho.

O corpo girou novamente e os olhos mais acostumados à claridade reconheceram o rosto de Chaveirinho.

– Já passei no banco e conferi. Você colocou o dinheiro direitinho. Cumpri minha parte, agora é com você.

– Vai me largar aqui? O cara que devia estar me esperando com a moto não chegou e mesmo se chegar não iremos longe com esses joelhos assim. Isso não tava no esquema.

– Fiz mais que costumo fazer. Cumpri o trato. Agora bye bye baby. – Se despediu dando dois tapinhas no rosto de Margarina e caminhou para a porta do motorista.

Margarina se apoiou no carro e perguntou que horas eram. O carro partiu, fazendo seu corpo despencar sobre o acostamento.

– Merda.

Margarina se arrastou até o mato que cobria a beira da estrada e ficou esperando o cara da moto chegar. Mas o cara não chegou. Quando estava quase anoitecendo, um carro parou. Alguém desceu. Era Chaveirinho. Seguindo os rastros de sangue, foi até o matagal onde estava escondido. Margarina levantou a cabeça com dificuldade, pois já tinha perdido muito sangue e a dor só piorava. Teve o intuito de sorrir, mas pensou duas vezes e viu que aquilo não podia ser boa coisa. Chaveirinho sacou a arma em sua direção.

– Pensei melhor. Vai que amanhã ou depois você dá mole e alguém te vê por aí. Todo mundo sabe que dar mole é com você mesmo.

Margarina arregalou os olhos em um último ato de desespero. O estouro da arma se fez ouvir.

Mais um que nunca deu sorte.

 

fsb-12Fabio da Silva Barbosa

E-mail: fsb1975@yahoo.com.br

 

Anúncios

Um pensamento sobre “A transação

  1. Pingback: Moradia versus burocracia | vinteculturaesociedade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s