Linguagem dos gestos

Câmara Cascudo foi o mais célebre intelectual do Rio Grande do Norte

Câmara Cascudo foi o mais célebre intelectual do Rio Grande do Norte (foto: divulgação)

A linguagem dos gestos é um recurso de comunicação que usamos o tempo todo sem ter consciência. É uma linguagem que “fala” por si mesma, seja no ritmo insano das mãos que  acompanham as palavras, numa troca de beijos no rosto ou no beliscão da namorada ciumenta.

A expressão por meio dos gestos do corpo é chamada de “mímica”, e uma particularidade dessa linguagem é que no desenvolvimento do ser humano ela é anterior à existência da fala. “O gesto, antes das interjeições e onomatopeias, supriria essa deficiência oral”, escreve o antropólogo e historiador modernista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), referindo-se ao período pré-histórico do homem, quando a fala ainda não era bem articulada.

Os aspectos psicológicos, sociais e históricos dos gestos podem ser encontrados no livro ‘História dos nossos gestos: uma pesquisa da mímica no Brasil’, de autoria de Câmara Cascudo.  Esse estudo, originalmente publicado em 1973, é interessante porque o Brasil é um país em que a linguagem do corpo se mostra importante na cultura, relacionada ao futebol, ao carnaval e a outras expressões populares.

A linguagem do corpo, no entanto, é universal. Não há cultura em que não se possa observar, entre outros gestos, o fenômeno da “manuelagem”, ou seja, o hábito de falar com as mãos. “Diz-se que o homem do Povo com as mãos amarradas fica mudo”, lembra Cascudo. O livro é organizado segundo 330 gestos que o autor pesquisou, esmiuçando o significado de cada um deles.

Ao ler esse livro, é possível saber, por exemplo, que o beliscão é um gesto que se popularizou no País com a vinda do rei D. João VI, no início do século 19, para fugir das tropas de Napoleão Bonaparte. Isso aconteceu porque o beliscão era um hábito português, reconhecidamente praticado na mulher dos outros. Antigamente, o beliscão era também um recurso dos professores mais severos: “Foi a grande arma escolar, desasnadora, disciplinar, didática. Alguns mestres caracterizavam-se pela unha longa do polegar, feito mandarim”.

Outra curiosidade que achei no livro é sobre aquele gesto desaforado, com o dedo maior esticado e os outros recolhidos, que no Ceará era conhecido como “João Cotoco”.  Interessante também é o testemunho histórico que Cascudo encontrou do gesto de mostrar a língua, expressão de escárnio: “Trezentos e sessenta e dois anos anteriores a Era Cristã, os gauleses assaltaram Roma e um dos guerreiros pôs a língua de fora injuriando os romanos”.

 

Câmara Cascudo - capaHistória dos nossos gestos: uma pesquisa da mímica no Brasil,

Luís da Câmara Cascudo, Global Editora, SP, 2003, 277 págs.

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Um pensamento sobre “Linguagem dos gestos

  1. Livro essencial para entender um pouco melhor a dinâmica da interação entre nós brasileiros, além de história universal por um simples gesto: ler o livro.

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