Memorial de um modernista

Oswald de Andrade escreveu memorial com irreverência (Foto: Biblioteca Nacional)

Oswald de Andrade escreveu memorial com irreverência (Foto: Biblioteca Nacional)

A vida e a obra de Oswald de Andrade (1890-1954), escritor que fundou o movimento modernista, estão intrincadas no livro ‘Um homem sem profissão. Memórias e Confissões. Sob as ordens de mamãe’, que foi originalmente publicado em 1954, ano de sua morte. O livro apresenta um memorial que seria o primeiro volume de uma série de quatro títulos, que não chegaram a se concretizar.

As memórias de Oswald ficaram assim restritas a esse volume I, que traz o período de sua infância até o início da vida adulta, e ao início do volume II, que deveria tratar dos anos 20, quando houve a gênese do movimento modernista, marcado pela Semana de Arte Moderna, de 1922. Nesse início de texto, Oswald trata do período na faculdade de Direito do Largo do São Francisco, onde estudou, e registra suas críticas a essa instituição.

No gênero literário do “memorial”, o leitor em geral encontra a oportunidade de conhecer aspectos da personalidade do narrador e ao mesmo tempo traços sociais e históricos da época vivenciada. Essas duas coisas estão presentes no texto de Oswald, mas de uma forma subvertida e irreverente, como era o estilo do escritor que foi fundamental para a literatura brasileira dar uma guinada em direção à liberdade.

Na introdução à primeira edição, o escritor e crítico Antonio Candido fala sobre essa questão, que envolve os retratos do tempo e o espírito do autor: “Aqui tudo se mistura; o eu e o mundo fundem-se num ritmo de impressão pessoal muito peculiar, em que se perde, por assim dizer, a independência de ambos. Este livro delineia de vez o ser complexo e estranho que é Oswald de Andrade, desnudando a extrema singeleza (sem paradoxo) de suas componentes fundamentais”.

No início do texto, são impagáveis as confissões de Oswald sobre suas fantasias de infância e como sua vida despertou para o amor, em meio a crenças católicas que pretendiam transformar toda a manifestação em pecado. Foi visitando um circo pela primeira vez que Oswald conta ter se encantado com as dançarinas, que depois passaram a frequentar sua imaginação de noite na cama: “O camisolão azul era o pano do circo que o mastro central enfunava. E as ‘pastorinhas de meu sexo’ do poeta Luís Coelho, pelos olhos encantados da invenção, vinham até mim, para consertar, róseas, frescas, faiscantes, os seus maiôs rasgados”.

Outro momento importante do texto é o da primeira viagem de Oswald à Europa, ficando principalmente na Itália, França e Inglaterra, onde conheceu artistas de viés modernista, e que entre outras coisas propunham abandonar a métrica na poesia e também a postura dominante cristã de reprimir a expressão do amor e da sexualidade.

 

Oswald de Andrade - capa2Um homem sem profissão. Memórias e Confissões. Sob as ordens de mamãe,

Oswald de Andrade, editora Globo, SP, 2000, 236 págs.

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