Diga como te chamam e te direi quem és

Engraçado como adquirimos formas de tratamento carinhosas até pelas pessoas às quais menos nos afeiçoamos ou ainda não nos afeiçoamos. A frase parece conflitante, mas não é. A necessidade humana de afeto faz as pessoas chamarem umas às outras por apelidos – pela primeira sílaba do nome, por alguma característica, pelo diminutivo ou superlativo do nome – ou por algum substantivo genérico e de uso coletivo, tais como querido/a, amigo/a, flor. Pelos amigos já fui ou ainda sou chamada “Má”. Nas empresas onde trabalhei costumo ser sempre “Marininha” ou o avesso, “Marinão”. Até hoje me pergunto quais serão os motivos que levam às pessoas a optarem pelo primeiro ou pelo segundo apelido. Quando alcanço uma resposta provável, sempre acho melhor parar de pensar.

A ironia, quando usada no dia a dia e por pessoas pseudomalvadinhas, é boba; cai na pieguice e torna-se comum. É diferente da ironia bem pensada e afiada como navalha, usada pelos verdadeiros irônicos na vida prática ou na literatura, como a deliciosa ironia de Nelson Rodrigues. A ironia de chamar alguém que você quer enforcar de querido cai bem apenas no vocabulário do doce Nelson e no das peruíssimas loiras, que, diga-se de passagem, têm um vocabulário engraçadíssimo e naturalmente todo peculiar.

Eu costumava olhar torto para aqueles que chamavam de querido ou querida uma pessoa mais ou menos próxima e não uma pessoa querida de verdade. O cara do gabinete ao lado do trabalho, vamos supor. Alguém que você sabe que existe e até sabe o que costuma vestir e como costuma falar, mas, com este alguém, você não compartilha ideias, sorrisos e nem mesmo olhares de simpatia. Um dia vocês, pelos ossos cadavéricos do ofício, são obrigatoriamente postos em contato. E num momento de silêncio constrangedor e por falta de maiores trocas, um de vocês chama o outro de “querido”, “amigo” ou “colega”, no sentido esquisito e degringolado, enrolado e ambiguamente ininteligível do termo.

Era mais fácil quando querido era o namorado, amigo era o amigo de fato e colega era alguém com quem você não tinha maiores afinidades, mas mantinha uma relação de respeito e cordialidade. Gata não é mais termo de uso exclusivamente gay. Flor não é mais aquela que você colhe no jardim. Na promiscuidade entre termos e significados deturpados localiza-se a nossa confusão. Não sabemos quem é amigo, quem é colega e quem é conhecido, nem sabemos quando o termo é usado com ironia e quando é utilizado com carinho. Fenômeno perigosíssimo esse de tanto fez como tanto faz ser chamado disso ou daquilo sem saber o real sentido do que estamos sendo chamados e do que estamos chamando os outros. Dar nomes às coisas sempre foi um primeiro passo para alcançar um sentido mais real numa sociedade que te apresenta muitos sentidos, quase todos dotados de interesses escondidos e espúrios. A questão é que nossa sociedade ama o pragmatismo mais que tudo – e cumummente, mais do que os humanos. A palavra perde força quando seu sentido não equivale a uma situação real.

A sensação que resta é, para os otimistas, a de que se tem vários amigos e que a empatia rola solta em todos os cantos, no trabalho, em encontros casuais, nas ruas e nas festas; para os pessimistas, fica a sensação do esvaziamento das palavras e seus significados e do entrosamento sincero  entre as pessoas. Vem também uma dúvida  que abala qualquer ser humano quando surge. Ela é boba, sentimentalóide e sua resposta define o resto do humor do nosso dia: eu sou amado ou sou apenas hospedeiro da nova parasitária gíria do momento? É uma nova fase: diga como te chamam e te direi quem és.

 

Marina Moura2Marina Moura

E-mail: mmourabarreto@gmail.com

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Um pensamento sobre “Diga como te chamam e te direi quem és

  1. Marina, achei fantástica a sua discrição. Nunca tinha prestado atenção a isso, mas tem um fundo de verdade. Leitura muito gostosa. Parabéns

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