Espírito vivo de Maio de 1968

Nas imagens que a TV divulgou sobre as manifestações dos estudantes em São Paulo, achei emblemática uma em que jovens carregavam uma faixa com mensagem que alertava algo como “transporte público não é mercado”. A discussão de vinte centavos a mais ou não no preço da passagem é só o estopim de um descontentamento geral, que há tempos vem acumulando energia, graças à decadência da nossa inteligência com o consumismo desenfreado, a mídia ultraconservadora cuspindo valores e tentando dizer como temos de fazer as coisas, e o abandono de bandeiras históricas pelos governos Lula e Dilma, como a reforma agrária e os índios.

Para os jovens que estão saindo às ruas, o caso do transporte público se insere na questão dos Direitos Humanos e, portanto, trata-se de confrontar um sistema que originalmente foi concebido para proporcionar um serviço, mas também para dar lucro.  Ir e vir parece ser um direito que não deve necessariamente passar pelo pagamento de um “pedágio”. Essa questão de querer ganhar sobre o direito do outro tem raízes históricas, mas a consciência coletiva está mudando, e os jovens foram às ruas para nos lembrar que estamos ficando muito caretas, “coxinhas”, e precisamos mudar o mundo.

Zuenir Ventura: livro conta as transformações de 1968 no Brasil (Foto: Divulgação)

Zuenir Ventura: livro conta as transformações de 1968 no Brasil

“O espírito de Maio de 1968 está vivo”, foi o que pensei o tempo todo, lembrando de um momento histórico, de aceleração de consciência coletiva, em que os estudantes franceses foram para as ruas protestar e literalmente ganharam o mundo com as manifestações que se espalharam para Europa e as Américas, alcançaram os trabalhadores e colocaram o governo francês em colapso. Dany Cohn-Bendit, líder estudantil na França, define aquele momento: “Em 1968, o planeta todo pegou fogo. Foi como se uma palavra de ordem universal tivesse sido dada. Em Paris, Roma, Berlim ou Turim, a calçada e o paralelepípedo tornaram-se os símbolos de uma geração revoltada. ‘Queremos o mundo e o queremos já’, cantava Jim Morrison…”, escreve Dany no livro “Nós que amávamos tanto a revolução” (editora Brasiliense, 1986).

No Brasil, 1968 foi um ano marcado pela mobilização clandestina e armada dos estudantes, em luta contra a ditadura militar. Para ter uma ideia do que foi esse momento, um livro de referência é “1968 – O ano que não terminou” que, por sua atualidade, ganhou nova edição neste ano.

1968 foi um momento crucial da história do País, em que as famílias tinham seus filhos arremessados aos porões da repressão, sob tortura em pau de arara e choque elétrico, sem contar os detalhes sádicos que a imaginação dos torturadores ostentava. E enquanto a política do mais forte corria solta, uma transformação cultural tomou conta do País, e novos personagens emergiram na cultura, como a tropicália e os novos baianos, o diretor de teatro Zé Celso, entre muitos outros nomes.

Zuenir ventura - capa21968 – O ano que não terminou,

Zuenir Ventura, editora Objetiva, 2013, RJ, 312 págs.

Foto: Divulgação

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