Capa de gordura

O velho marinheiro, nosso lobo do mar, fingia-se de morto. Por conveniência.

Controlou a irritação, não ousou caçar o bicho do pé imaginário. Para não dar bandeira, inibir a conversa entre a filha e uma de suas melhores amigas, mulher de peitos pequenos e de bunda imensa. Afinal, o assunto – bunda – lhe interessava desde sempre, desde criancinha, desde os tempos em que enfrentava ondas das bravas e cabarés de quinta categoria.

— Ivani, bote reparo. Da cintura pra cima, posso ser considerada uma mulher magra. Uso sutiã 42. A desgraça é da cintura pra baixo, manequim 58. É um trabalho danado pra comprar roupa que sirva – disse a visitante.

— Fazer o quê? Cada uma é cada uma. Meu problema é outro: o tamanho dos peitos. É muito peito pra pouca bunda – lamentou a filha do velho marinheiro, após longo suspiro.

— Meus quadris são muito largos – insistiu a visitante.

O lobo do mar resolveu entrar na conversa:

— Seu problema, minha senhora, não é largura dos quadris. É a capa de gordura que envolve os danados. E dela a senhora não dá jeito, não. Não há quem possa dar jeito nisso. Só faca de cirurgião. Conforme-se.

 

orlando3Orlando Silveira

orlandosilveira@uol.com.br

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