Mais consciência sobre o Brasil

Marilena: mito fundador encobre os conflitos da sociedade

Marilena: mito fundador encobre os conflitos da sociedade brasileira

O livro estava há semanas sobre a mesa, já empoeirado, aguardando uma oportunidade de leitura. Aí vieram as manifestações de junho de 2013, o livro se inscreveu novamente no contexto da atualidade e a poeira foi embora. “Brasil: mito fundador e sociedade autoritária”, da professora de filosofia da USP Marilena Chaui, é praticamente uma luz para clarear o nosso caminho nesse momento em que, apesar da vitória das manifestações, conseguindo cancelar o aumento do transporte coletivo, uma “falta de ideias” coloca a mobilização a serviço dos valores mais conservadores.

Um efeito disso, por exemplo, é que a política tem sido reduzida a uma prática de criminosos e corruptos. Essa ideia ficou patente quando os portadores de bandeiras de partidos foram agredidos em São Paulo. A rejeição aos partidos expressa um descontentamento, é verdade, mas é importante perceber a realidade: não temos outro modo de representação e de organização de governo que não seja por meio de partidos. De qualquer forma, essa discussão colocou a reforma política na agenda do País, e a resposta da presidente Dilma foi a ideia de plebiscito. Em breve o povo deverá se manifestar por voto se quer ou não acabar com o clientelismo, a rede de favores e a influência do dinheiro na política. É de uma reorganização institucional de que estamos falando, portanto, e não propriamente de punir ou banir políticos do exercício do poder.

O livro da professora Marilena é uma contribuição para nos lembrar de quem somos, enquanto brasileiros, ou seja, filhos de um País autoritário, dominado por ideologias que querem nos fazer acreditar que somos um povo ordeiro, pacifista e abençoado por Deus. Na brilhante dinâmica desse texto, a autora parte das construções simbólicas que constituíram o que ela chama de “mito fundador” do Brasil, para em seguida mostrar como essas crenças encobrem a realidade de nossas relações, nossos verdadeiros conflitos e contradições, coisas que se manifestam, por exemplo, na pessoa que fala contra as cotas nas universidades, ou que “quem recebe Bolsa Família é vagabundo”, para depois dizer que o País é maravilhoso, não discrimina ninguém. Isso esconde o cruel processo de exclusão social, que tem raízes históricas e sua existência negada pelo discurso predominante.  O livro é, assim, uma sugestão para colocar mais conteúdo histórico e político nas manifestações.

Marilena Chaui - Brasil mito fundador - capa2Brasil: mito fundador e sociedade autoritária,

Marilena Chaui, Editora Fundação Perseu Abramo, SP, 2000, 103 págs.

Foto: Divulgação

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