As namoradas do velho marinheiro

O velho marinheiro, nosso lobo do mar, deu um pontapé na compostura, um chega prá lá no silêncio quase forçado que a família lhe impusera.  E pediu à neta:

— Faça um favor a seu avô, Irene: mande este negócio escrito pra Deolinda pelo computador, pelo tal de e-mail. Com essas coisas não sei mexer, não. Nem quero aprender. O endereço está aí, anotado por ela, de punho próprio. Sinal de que espera alguma coisa de mim. Vai ter o melhor.

A neta ficou abismada com o que leu:

“Deolinda, Deolinda: coisa linda demais, eu faço minhas as poucas – mas sábias – palavras de Mário Quintana: ‘Eu queria trazer-te uns versos lindos…/Trago-te estas mãos vazias/Que vão tomando a forma das tuas nádegas’”.

— Não bastasse sua canalhice, o senhor errou feio: Quintana não falou em nádegas. Ele falou em seios – esbravejou a neta.

— Eu sei, eu sei. Quem não sabe de nada é você. Perto das nádegas, os seios de Deolinda são pinto. O poema original já foi enviado para Guiomar, mulher de bunda miúda e seios fartos, quase uma vaca profana, como diria o irmão branco de Gilberto Gil. Um amigo me fez o favor de lhe enviar o bilhete. Estou semeando. Uma delas cai na rede.

 

orlando3Orlando Silveira

orlandosilveira@uol.com.br

 

 

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