Crises narrativas na sociedade do espetáculo

Na vida real e na literatura existem hoje crises narrativas, que têm conexão com o tempo que estamos vivendo. No primeiro caso, essa crise tem se mostrado nas manifestações de rua, seja no Leblon, no Rio, ou na av. Paulista, com os jovens que se recusam a dar entrevista para os jornalistas da mídia tradicional, ou mesmo os hostilizam. O problema foi discutido na última semana no programa Roda Viva, da TV Cultura, que entrevistou os jornalistas da Mídia NINJA Bruno Torturra e Pablo Capilé. A emissora alternativa tem sido o contraponto da TV tradicional na cobertura ao vivo das manifestações, atraindo milhares de jovens para suas transmissões nas redes sociais.

Debord – Na sociedade do espetáculo, “parecer” é mais importante do que “ser”

Debord – Na sociedade do espetáculo, “parecer” é mais importante do que “ser”

Capilé disse que a crise narrativa atual ocorre por conta de um modelo que perdeu credibilidade. Editar ou “empacotar” imagens e dizer que aquilo é uma verdade “imparcial” não convence mais. Capilé propõe que os veículos de comunicação assumam suas “parcialidades”, que são suas posições políticas e valores, para que a difusão de informações se dê de forma transparente.

No universo da literatura, a crise também se dá por conta da falta de espaço para “discursos” que estejam fora do massacre do senso comum, que simplifica as coisas e as pessoas. “Muitas das construções, marcadamente modernas, acerca do sujeito e de suas relações sociais, sofreram simplificações, quando, no afã de realizar a crítica da modernidade, se fez passar por monolítico o que na verdade foi, mesmo em seu tempo, incerteza e conflito”, escreve Denise Brasil Alvarenga Aguiar, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) em artigo sobre o tema.

Segundo Denise, essa simplificação, ou homogeneização, colabora para que os indivíduos tenham somente um tipo de percepção das coisas. Sair fora da experiência comum e enxergar outros horizontes parece algo difícil nos dias de hoje, em que as imagens no aparelho de TV dizem como deve ser a verdade. Neste momento, a Mídia NINJA e outros canais de informação alternativos, como os blogs, têm feito esse trabalho.

O filósofo francês Guy Debord (1931-1994) escreveu no livro “A sociedade do espetáculo” que as imagens têm um caráter autoritário e que seu controle é essencial para manter os indivíduos voltados para o consumo: “A administração desta sociedade e todo o contato entre os homens já não podem ser exercidos senão por intermédio deste poder de comunicação instantâneo, é por isso que tal ‘comunicação’ é essencialmente unilateral; sua concentração se traduz acumulando nas mãos da administração do sistema existente os meios que lhe garantem prosseguir administrando”.

Esse livro, escrito nos anos 60 e famoso por ter inspirado desde então ideias transformadoras, tem sido lembrado por conta das manifestações de rua, e sua leitura é essencial para quem deseja saber mais sobre a sociedade hoje e a forma como as imagens acabam sendo instrumentos de doutrinação para os interesses de mercado.

Guy Debord - capa2A sociedade do espetáculo,

Guy Debord, tradução de Estela dos Santos Abreu, Contraponto Editora, RJ, 240 págs.

Fotos; Divulgação

Leia artigo da professora Denise Brasil Alvarenga Aguiar sobre a crise na narrativa contemporânea na literatura.

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