Suspense e conspirações com o romance ‘O Código Numerati’

Uma das coisas mais interessantes ao procurar um livro é encontrar boas obras fora do mundo das celebridades literárias, entre os escritores independentes. No caso, o livro que me chamou a atenção nos últimos dias foi o romance “O Código Numerati – Conspirações em Rede”, de autoria da escritora paraibana Andrea Nunes, que também atua como promotora de justiça no Ministério Público de Pernambuco.

Andrea – Romance policial e abordagem de problemas atuais (foto: divulgação)

Andrea – Romance policial e abordagem de problemas atuais (fotos: divulgação)

Com experiência em investigações sobre corrupção e especializada no polêmico assunto da gestão das ONGs, instituições que por vezes viram fachada de operações escusas ou ilegais, Andrea escreveu em 2010 um romance policial que claramente se inspira em “O Código Da Vinci”, de Dan Brown, e no livro “Numerati”, do jornalista norte-americano Stephen Baker, que aborda a transformação social, econômica e política provocada pelo rastreamento de dados de pessoas na internet.

No romance de Andrea, a dinâmica do enredo policial parte do mistério sobre as significações das inscrições rupestres no sítio arqueológico de Pedra do Ingá, na Paraíba. Uma jovem arqueóloga e um delegado buscam desvendar o assassinato de um cientista da empresa Numerati, que trabalhava em um relatório sobre o material pré-histórico e sua possível relação com a existência de seres extraterrestres.

A escritora adota referências verdadeiras para detalhar a história, como locais, documentos e instituições, e isso acaba tornando o texto ao mesmo tempo ficção e retrato de problemas que afligem a sociedade, como a atuação ilegal de ONGs e a espionagem de dados na internet. O romance conta ainda com uma abordagem política e traz para o contexto da história a tramitação do Marco Regulatório da Internet no Brasil, que até hoje não foi votado pelo Congresso, apesar da falta de privacidade na rede ser crescente.

Andrea afirma que se sensibilizou para a questão da internet pelo fato de ter uma filha adolescente. “Percebi que a chamada geração digital é frágil, devassada, se expõe sem limites na rede mundial e não se sabe ainda que consequências isso terá a longo prazo”.

No romance, ao aproximar esse tema universal do regionalismo por meio da Pedra do Ingá, Andrea retoma a tradição dos escritores do Nordeste, que sempre abordaram o sertão em suas perspectivas locais e universais. O leitor também vai perceber que a escritora desenvolve com conhecimento de causa o processo investigativo. “Devo ao Ministério Público minha paixão pela investigação, pela discussão da ética até o seu limite e, claro, é impossível dissociar da literatura o conhecimento adquirido”, afirma.

Andrea Nunes - capaO Código Numerati, Conspirações em Rede,

Andrea Nunes, editora All Print, SP, 2010, 232 págs.

 

 

Confira a seguir entrevista por e-mail com a escritora Andrea Nunes:

Quem é Andrea Nunes e qual sua relação com a literatura? Você escreveu outros livros?

Sou o membro mais jovem da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba (cadeira nº 25). Sou autora dos seguintes livros:

“O diamante cor de rosa”, gênero infantil, publicação em 1988, Gráfica Santa Marta-PB, publicação e distribuição local, rendeu o Troféu Parahyba de imprensa como melhor obra literária infantil publicada no Estado (1991). Adaptado para o teatro, arrebatou também o troféu “Baile dos Artistas”, melhor adaptação de obra literária ao teatro (1990).

“Papel Crepom”, gênero romance, Editora Ideia (PB), publicação em 1992, com distribuição local.

“Terceiro Setor – Controle e Fiscalização”, gênero jurídico, Editora Método (SP), publicação e distribuição nacional, com duas tiragens esgotadas e mais de mil livros vendidos.

Sobre minha relação com a literatura, nasci prestando atenção, querendo entender. Desde então apreendo o mundo com avidez, coleto histórias, olhares, pessoas, ideias e cenários. Aí, através dos livros, descobri que as palavras eram um fio condutor para eu devolver ao mundo tudo isso que eu coletava dele e ficava elaborando. Desde então escrevo porque preciso, porque o turbilhão de pensamentos e emoções vai se encaixando nessas palavras, ganhando forma e sentido.

 ‘É difícil para mim identificar algo casual nos romances que escrevo. Penso e repenso, escrevo e reescrevo, leio e reviso cada página. E ainda assim alguns detalhes escapam’

‘É difícil para mim identificar algo casual nos romances que escrevo. Penso e repenso, escrevo e reescrevo, leio e reviso cada página. E ainda assim alguns detalhes escapam’

Em que ano você escreveu o “Código Numerati”? Você assume a influência do livro do Stephen Baker, mas o livro/filme Código Da Vinci também influenciou sua obra? Há outras influências?

O livro foi escrito no ano de 2010. O “Código Da Vinci”, como um grande best-seller, tem algo a ensinar. Percebi através dele que o mundo contemporâneo esperava mais do escritor de romance policial: ele esperava que, além do velho clichê morte-mistério-clímax-revelação da trama, a obra agregasse conhecimentos, curiosidades históricas, mesclando com temas polêmicos da modernidade. Agora, ao aproveitar a fórmula, não é preciso absorver o estilo. Tentei captar isso, mas acrescentei outros elementos que os leitores sentem falta em Dan Brown, como, por exemplo, uma maior complexidade psíquica dos personagens, a dimensão ético-filosófica que é discutida como valor contemporâneo e os elementos regionais presentes na trama.

Essa preocupação com a privacidade na rede ainda é nova. Até aqui, as pessoas estavam como que deslumbradas com as redes sociais e somente agora parece começar a despertar uma certa consciência sobre o tema em meios mais populares. Como você se sensibilizou para o tema?

Primeiramente, pela vivência de ser mãe de filha adolescente. Percebi que a chamada geração digital é frágil, devassada, se expõe sem limites na rede mundial e não se sabe ainda que consequências isso terá a longo prazo. Em segundo lugar, na minha vivência profissional, percebi que as tais informações disponíveis na web já eram uma das principais fontes de investigação das pessoas, que estavam espontaneamente abrindo suas vidas para todos nas redes sociais. Percebi, por exemplo, que a Polícia Federal não precisa mais devassar um banco de dados sigiloso de um suspeito detido no aeroporto. Suas redes sociais, em geral, dirão mais sobre ele do que os arquivos secretos e bancos de dados oficiais.

Seu texto é objetivo, de impacto visual e recortado como as cenas de cinema. Você gostaria de ver o seu livro virar filme? Já o escreveu pensando nisso?

Não o escrevi pensando nisso, pois geralmente escrevo pensando em histórias que eu simplesmente gostaria de ler. Mas gostaria de vê-lo nas telas, claro. O impacto visual é proposital mesmo. É um livro para se enxergar a cena, é a ferramenta necessária para atrair um público cada vez mais multimídia. Mas ele enxergará a cena se inquietando e refletindo pelo que a trama representa.

Você usa dados reais para construir sua história, e parece mesmo conhecer os bastidores do poder, creio que por conta de sua atuação profissional no Ministério Público. O quanto sua experiência no MP foi importante para esse trabalho?

Devo ao Ministério Público minha paixão pela investigação, pela discussão da ética até o seu limite, e, claro, é impossível dissociar da literatura o conhecimento profissional adquirido, principalmente na minha área de atuação, onde tenho treinamento em inteligência, e lido constantemente com o poder por investigar casos de corrupção.

E sobre a Pedra do Ingá… As pesquisas de fato têm avançado para decifrar os símbolos? O que há de concreto sobre isso?

A Pedra do Ingá, tombada como Monumento Nacional, é realmente o sítio arqueológico mais famoso do Brasil, e um dos mais misteriosos do mundo. Todas as informações colocadas no livro sobre ela, inclusive as teorias sobre os símbolos terem sido insculpidos por extraterrestres, são retiradas de pesquisas arqueológicas verídicas, embora, naturalmente, não comprovadas. O historiador Wanderlei de Brito tem se debruçado há décadas sobre o mistério, bem como os pesquisadores Gilvan de Brito, Aurélio Abreu, Fernando Moretti e muitos outros.

Você aproxima um tema universal, a Internet, do regional, a Pedra do Ingá. Ao mesmo tempo faz ficção com dados reais, de tal modo que o seu romance tem várias faces e parece ter sido pensado sobre um roteiro bem estudado. Há alguma coisa no romance que foi casual, ao sabor do momento em que você escrevia?  

É difícil para mim identificar algo casual nos romances que escrevo. Penso e repenso, escrevo e reescrevo, leio e reviso cada página. E ainda assim alguns detalhes escapam. Talvez a descrição e alguma característica dos personagens secundários sejam o que mais se aproxima do casual, quando estou suscetível a alguma coisa que minha mente armazenou no cotidiano recente, como as pulseiras ruidosas da irmã da protagonista. Posso dizer também que não tive consciência, enquanto escrevia, do quanto o romance reflete a influência de Foucault na minha formação. Apenas depois que alguns versados em filosofia identificaram essa nuance é que pude ver que, de forma casual, o romance transborda os ensinamentos de Foucault sobre a sociedade do controle e relações de poder. Mas tirando esses aspectos, praticamente nada é por acaso, mas é tudo rigorosamente forjado para dar uma impressão de leveza e simplicidade.

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