Fim do mundo

— Mafaldinha, meu eterno broto, meu broto cheiroso: às vezes, tenho a impressão de que o mundo vai acabar em breve. Se é que já não acabou, e a Globo se fez de morta, para não espantar os anunciantes.

— Por que esse pessimismo todo, criatura. Nem parece mais o velho marinheiro, o lobo do mar de outrora. Passa horas esfolando esse dedão em busca de um bicho de pé, que o médico já lhe garantiu que não existe.

— Não é pessimismo. É constatação. Você viu o que aconteceu aqui ontem, domingo, em nossa casa?

— Ora, aconteceu o que sempre acontece aos domingos aqui, meu velho: casa cheia de filhos, netos, namorados e namoradas de uns e outras. Mesa farta, graças a Deus.

— Além de surda, você anda desatenta demais, nunca foi assim, deve estar com uma dessas doenças modernas. Será que não viu o comportamento deles? A casa estava lotada, mas sem ninguém. Eles só se falam pelo computador. Vão acabar fazendo filhos pela internet. Saem os bebês de proveta, entram os nenéns de notebook. De vez em quando, um dá uma risada, e outro gargalha também. Ninguém sabe o motivo. Vai ver que é de nós, dos velhos.

— É a modernidade, bobalhão. Queria que as moças passassem a tarde fazendo tricô, como nos nossos tempos? Que passassem o dia fazendo quitutes?

— Modernidade uma pinoia. É falta de educação ficar estirado, tarde todinha, no sofá dos outros. Daqui a pouco, não vou ter onde me sentar. Ninguém tira o prato da mesa. Ninguém lava um copo. Nem filhos. Nem visitas. Nem ninguém. Sobra pra você arear as panelas – e, pra mim, enxugar e guardar a louça. Aonde vamos parar? O mundo vai de mal a pior.

— Pessimista.

— Pessimista uma ova. Ainda acho o bicho do pé só para desmoralizar o médico…

 

orlando3Orlando Silveira

orlandosilveira@uol.com.br

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5 pensamentos sobre “Fim do mundo

  1. É assim mesmo que anda a juventude. Eles não olham no rosto de ninguém, se estão almoçando o celular está do lado do prato, passam mensagem o tempo todo. Quando acabam de comer, nem a cadeira eles empurram. Acham que a obrigação é dos pais. Se você cobra arrumação de quarto, dizem que não são neuróticos, fazem quando querem. Se não sou eu a arrumar o quarto , não fica uma roupa dentro das gavetas ou guarda-roupas. Jogam pelo chão. Como é que um ser humano desse pode vir a chefiar, organizar um departamento no futuro. Não vejo como. Sinto muita falta da educação que tive. Minha mãe só olhava, nós já entendíamos. Não existia psicólogo . Minha mãe é que sabia das coisas. Ela sempre nos ensinou e dizia: quem não sabe fazer não sabe mandar. Se essa juventude é o futuro do Brasil, decididamente estamos sem futuro . Sabe a impressão que eles me dão: se acham seres superiores .

  2. O Velho Marinheiro através de você, Orlando Silveira, sempre está com a razão.
    Peço permissão a ruth eppinger henrique para assinar embaixo o comentário dela acima. Disse tudo!

      • Em resposta ao meu amigo Jorge Macedo. Falo com conhecimento de causa. Já estou na segunda edição . E está cada vez pior. Com filho já me queixava, mas agora com neto de19 anos que criei e mora comigo está muito pior.

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