Com o homem, nem o Diabo pode

Machado de Assis: Conto sobre igreja às avessas

Machado de Assis: Conto sobre igreja às avessas

Na semana passada, tropecei em um conto que ainda não conhecia de Machado de Assis (1839-1908) e fiquei enlouquecido, com o pensamento voando. Essa história começou com o escritor e cordelista Janduhi Dantas, de Patos (PB), que escreveu em cordel para o blog Livros & Ideias, a partir de uma notícia publicada no site inglês “London Evening Standard”, sobre o casamento de um pedreiro aposentado de Jundiaí (SP) com uma cabra chamada Carmelita.

Primeiro achei engraçada a coincidência fonética entre os nomes “Janduhi” e “Jundiaí” e ao publicar a versão inicial do texto usei a assinatura “Jundahi Dantas”. Tenho a impressão que os atos falhos fazem parte da vida dos textos, não importa se publicados com pressa ou não. Mas não é nada que não possa ser resolvido com uma revisão atenta.

Pelo Facebook, um amigo disse que a história do caprinoafetivo Aparecido Castaldo, 74 anos, o remeteu ao conto “A Igreja do Diabo”, de Machado. A conexão entre o fato e o conto se deu por um detalhe: Castaldo diz que consultou as igrejas tradicionais, mas não conseguiu quem fizesse o casamento, mesmo falando que não era por zoofilia, mas por companhia. O casal somente foi aceito por Toninho do Diabo, uma lendária figura em Jundiaí, que se diz representante do Dito Cujo.

Toda a obra de Machado pode ser copiada sem custo no site Domínio Público, do Ministério da Educação. Por isso, não tive dificuldade para encontrar o conto. Nessa narrativa, escrita com a mesma pena de galhofa típica de Brás Cubas, o mais famoso narrador criado por Machado, o Diabo tem a ideia de fundar uma igreja e procura Deus para comunicar sua decisão.

Diz o Diabo a Deus, usando a figura retórica de uma parábola: “Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essas franjas, e trazê-las todas para a minha igreja; atrás dela virão as de seda pura…”

O empreendimento do Diabo parece coroado de êxito e ele, enfim, pode pregar em defesa da inveja, do ciúme, da usura, fraude e tudo o mais que pudesse ser negação das virtudes. Mas com o passar do tempo, o Diabo começa a notar os seus fiéis em atos de compaixão e fica assombrado, dando-se conta de que não pode exercer todo o seu poder sobre o espírito humano.

A Igreja do Diabo,

Machado de Assis, no site Domínio Público: www.dominiopublico.gov.br.

Foto: Divulgação

Leia versão em PDF publicada no Metrô News.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s