Projeto literário resgata memória de adultos em alfabetização

Antonio Alves dos Santos conta que nasceu na Paraíba em um lugar chamado Bezerro Amarrado e que veio para São Paulo em busca de uma vida melhor. Depois de 30 anos vivendo no Jardim Silvina, em São Bernardo do Campo, Antonio faz um curso de alfabetização no MOVA (Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos) e pela primeira vez registra sua história de próprio punho, contando como se casou, conquistou sua moradia e se tornou zelador no clube Aramaçan, em Santo André.

A trajetória de Antonio é um dos 14 contos que integram o livro “A mineirinha e outras histórias”, lançado em 2011 a partir de um trabalho coletivo com alunos do MOVA em São Bernardo e uma equipe de profissionais coordenada pela editora Lamparina Luminosa, voltada a projetos de difusão de cultura popular.

Todas as histórias são de alunos que deixaram suas cidades de origem para viver na metrópole. “Há quem fugiu de extremas condições de vida em busca de trabalho, quem se mudou por amor e quem veio em busca de um sonho; nenhum deles tem uma formação escolar, mas todos sabem falar da profunda experiência em praticar um ofício comum a todos: ser pessoa”, escreve na introdução Christian Piana, coordenador do projeto.

Gení - Nostalgia dos tempos de infância (Foto: Christian Piana)

Gení – Nostalgia dos tempos de infância em Minas (Foto: Christian Piana)

Para viabilizar a publicação e obter a expressão das emoções nos textos, os curadores do projeto desenvolveram com os alunos algumas estratégias como jogos teatrais, o desenho da linha da vida de cada um e entrevistas em vídeo. Com as manifestações surgidas nessas dinâmicas, os textos foram se enriquecendo e os curadores tomaram cuidado para preservar a identidade dos autores.

Ao ler esse livro, achei interessante poder observar que a literatura é mais expressão da alma do que do intelecto. As histórias são memoriais que têm em comum uma particularidade em função da origem humilde de seus autores: os textos espelham a contradição entre a vida no campo e a vida na cidade. “Percebe-se claramente a nostalgia dos tempos felizes de infância na roça, o lamento por abandonar a agricultura, o esforço por encontrar um lugar ao sol na cidade grande; são narrativas de quem nunca perde a esperança, apesar das adversidades da vida confinada na pobreza”, escreve Frei Betto no prefácio.

No conto que dá título ao livro, Gení Soares Lopes arrisca uma comparação entre o seu passado em um sítio em Minas Gerais e o presente na cidade: “Lá eu pensava em trabalhar, trabalhava ia embora para casa, tomava banho de tarde, no outro dia de novo ia trabalhar. A gente ia para o mato cantando alegre todo dia! Aqui fica só pensando no que não presta”.

A mineirinha e outras histórias,

Vários autores, editora Lamparina Luminosa, SP, 2011, 80 págs.

A versão digital pode ser consultada no site da editora.

 

Leia versão publicada no Metrô News.

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