Leminski livre

Falou-se tanto em biografias e direito de expressão na semana passada, e essa história da empresária Paula Lavigne, ex-mulher de Caetano Veloso, defender o direito dos artistas terem suas histórias “autorizadas”, que acabei um dia naturalmente acordando com o tema atormentando a mente. E aí uma coincidência: um amigo enviou um link para copiar o livro “Passeando por Paulo Leminski”, do escritor Domingos Pellegrini, que divulgou o texto gratuitamente na internet depois de um embate com a família do escritor, que exigia alguns cortes para permitir a publicação.

Gostei da atitude de Pellegrini de presentear o leitor com o relato das memórias de suas vivências com Leminski, com quem, como ele diz, teve amizade durante “três décadas e dezenas de garrafas”. Creio que Pellegrini é alguém “autorizado” a falar sobre o escritor, com quem dividiu suas experiências literárias e mais do que isso: Pelegrini mostra no texto que conhece profundamente a obra do amigo.

Leminski – Personagem de memórias com o tempero da invenção (foto: divulgação)

Leminski – Personagem de memórias com o tempero da invenção (foto: divulgação)

Para os herdeiros, o problema é que o livro aborda os problemas de Leminski com o álcool, o que o levou à morte, mas tirar ou atenuar essa questão significa privar o leitor de conhecer a personalidade de um dos mais importantes poetas e escritores dos anos 1970, autor do genial “Catatau”, de 1975, um romance satírico que se apresenta como um monólogo onírico de um filósofo, Renato Cartesius, depois de fumar maconha, em Pernambuco durante o período de ocupação holandesa. Esse livro se associa às obras que explicam o que é o espírito de ser brasileiro e ironiza a racionalidade do pensamento.

Leminski também era um poeta conhecido por escrever haicais, forma métrica de origem japonesa, com três versos, valorizando o texto conciso e objetivo. “Amar é um elo entre o azul e o amarelo”, diz um dos haicais de Leminski. Ao escrever as memórias, Pellegrini procurou uma forma que traduzisse o espírito do poeta. “Vou escrever um livro sobre Leminski. Mas não vai ser uma biografia, nem mesmo um livro convencional. Sem isso de começo, meio e fim enfileiradinhos certinhos feito soldadinhos de letras. Vai ser pra qualquer caboclo entender, mas vai ter o tempero da invenção, da criação, da trucagem e da brincadeira, como ele gostava, ou melhor, como ele gosta”, afirma.

O texto de Pellegrini é narrado por duas vozes: a dele, enquanto escritor, e a de Leminski, como um fantasma. O texto também se inspira na figura de um poliedro para compor os capítulos e apresentar não a figura definitiva do amigo, a quem chamava de Polaco, e sim algumas de suas facetas. Pellegrini faz assim alusão às pedras, tema central em Leminski, afinal, as pedras, mesmo rusticamente, são poliedros.

Passeando por Paulo Leminski,

Domingos Pellegrini, 2013.

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