Luvas? Pra quê?

O Velho Marinheiro, nosso Lobo do Mar, entrou sala adentro pisando duro, soltando fogo pelas fuças e fumaça pelas orelhas, imprecando contra Deus, o diabo e a terra do sol. Não falou com ninguém. Nem com Mafalda. Foi direto para o quartinho no fundo do quintal, onde guardava suas tralhas. E por lá ficou bom tempo, revirando caixas e mais caixas, esbravejando.

— Que será que vovô tem? – quis saber Irene, sua neta predileta. Vou lá pra ver.

— Não vá. Quando ele fica assim, melhor não chegar perto – aconselhou Mafalda. A raiva dele logo passa. Estou acostumada.

Meia hora depois, já mais calmo, nosso enfrentador de ondas, retornou à sala. E sem que, por prudência, ninguém lhe perguntasse nada, foi direto ao assunto:

— Não me comprem mais nada na padaria da esquina – ordenou. Aquilo é uma imundície só.

— Que barbaridade, meu velho. A padaria é tão bonita, chique mesmo; os funcionários estão sempre de uniforme limpo, redinha na cabeça e luvas nas mãos…

— E de que vale tudo isso? Agorinha mesmo, flagrei o rapaz que faz lanches na chapa coçando com vigor as partes baixas por dentro das calças! Com a mão enluvada! Rejeitei o lanche, lhe disse umas poucas e boas, só não lhe cortei o “instrumento” porque estava sem meu canivete. Se eles fazem isso na frente do cliente, imagine o que não fazem os padeiros pelas costas dos fregueses. Ali, não piso mais. Não basta ter luvas, não. É preciso lavar as mãos depois de coçar as bolas.

 

orlando3Orlando Silveira

orlandosilveira@uol.com.br

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