Projeto em vão

Manifestação no vão livre do Masp: abraço simbólico ao museu (foto:  Abilio Guerra)

Manifestação no vão livre do Masp: abraço simbólico ao museu (foto: Abilio Guerra)

Em sã consciência, ninguém discorda que é preciso humanizar a cidade de São Paulo. Mas, na prática, na hora de realizar projetos e propor soluções as coisas não são bem assim. Um exemplo disso ficou patente com a polêmica que rolou na cidade nas últimas semanas sobre o fechamento com grades do vão livre do Masp, na avenida Paulista.

Uma ação articulada entre o jornal ‘O Estado de S.Paulo’ e o curador do museu, José Roberto Teixeira Coelho, resultou na publicação de um editorial em 20 de novembro que defendia a proposta de fechamento, como forma de evitar que “dependentes de drogas e traficantes” frequentassem a área.

Quem leu o editorial e conhece um pouco da história do museu e de sua inserção na cidade ficou indignado. Mas, ainda bem que o pretenso projeto de cercar o vão livre foi em vão. Estive na semana passada nesse espaço público, conversei com as pessoas e não encontrei ninguém que gostasse da ideia. Mais do que isso: no sábado, 7 de dezembro, cerca de 250 pessoas fizeram uma manifestação no local, dando um abraço simbólico no museu para deixar claro que o espaço pertence à cidade e seu acesso deve permancer livre.

As autoridades encontram mil razões para cercar lugares públicos e dificultar o acesso a bens, em nome do combate ao vandalismo, pela preservação do patrimônio e assim por diante. Mas dificilmente uma cerca vai humanizar algum espaço; pelo contrário, cercar, restringir, limitar é o mesmo que desumanizar.

Ao fechar uma área pública, tomamos uma medida opressiva, ou seja, suprimimos o desejo daqueles que querem ter acesso ao espaço. É como deixar o problema do lado de fora, lavar as mãos e fingir que dentro do “cercadinho” a vida é maravilhosa. Ao perder energia com esse tipo de discussão, a cidade e seus habitantes deixam de tratar do que realmente interessa, que é a discussão sobre como mudar a sociedade, o País e até mesmo a nossa cabeça para que os espaços públicos sejam menos excludentes e para que os excluídos sejam acolhidos e tenham restituído seu direito à cidadania.

No vão livre, tive o prazer de conhecer Azambuja Calado, 65 anos, professor de iluminação cênica, que achou um porre esse debate. A grande questão para ele é a sociedade discutir o acolhimento das pessoas que moram nas ruas. “Todo mundo tem direito à moradia”, afirmou, reconhecendo que essa é a verdadeira luta para que a sociedade consiga avançar em direção a um futuro melhor. Sobre isso, só tenho a concordar.

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Um pensamento sobre “Projeto em vão

  1. Espetacular o seu texto….!!! Sempre, sempre a exclusão…. e sendo tão imensamente necessário projetos de inclusão ….. para moradias, para alimentação, para acesso ao lazer, para estudo digno, para empregos aos mais experientes, para os pobres, periféricos e negros. INCLUSÃO JÁ!!!

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