Banditismo social

Pancho Villa – Banditismo estabelece poder paralelo (foto: divulgação)

Pancho Villa – Banditismo estabelece poder paralelo (foto: divulgação)

Um sintoma dos dias atuais é a pouca disposição das pessoas para compreender os fenômenos ligados às tensões sociais. Nas manifestações que levaram os jovens às ruas em 2013, das quais despontaram os Black Blocs, ou no fenômeno dos rolezinhos nos últimos dias, a postura mais preconceituosa e simplista é aquela que classifica os jovens como “baderneiros” e ponto final.

Entender o contexto dos conflitos sociais em que tais manifestações ocorrem, bem como seus desdobramentos políticos, é algo que exige um pouco mais do que reduzir a questão a um ponto de vista. Foi também esse tipo de postura que o historiador britânico Eric Hobsbawm (1917-2012) aplacou no livro ‘Bandidos’, publicado em primeira versão em 1969, e que originou um novo ramo na pesquisa histórica, sobre o que o autor chamou de “banditismo social”.

O eixo do livro é a história política do papel do banditismo. É um texto afeito aos estudantes de ciências humanas, mas também representa um tesouro para quem tem curiosidade de olhar além das aparências e gostaria de saber mais sobre o fenômeno da violência. Curioso também é o próprio fato que ensejou o livro, segundo nos conta o autor: a constatação de que “a vida de certos tipos de bandidos era cercada exatamente pelas mesmas histórias e pelos mesmos mitos, que os mostravam como portadores de justiça e redistribuição social em toda a Europa”.

Nesse excelente trabalho de pesquisa, que faz do livro matriz para outros estudos, o historiador mostra com alcance universal como o banditismo no meio rural se repetiu em diferentes sociedades, articulando formas de resistência à modernização do Estado, como ocorreu em diferentes países na história. “O principal com relação aos bandidos sociais é que são proscritos rurais que o senhor e o Estado encaram como criminosos, mas que continuam a fazer parte da sociedade camponesa, que os considera heróis, campeões, vingadores, pessoas que lutam por justiça, talvez até mesmo visto como líderes da libertação e, sempre, como homens a serem admirados, ajudados e sustentados”, escreve Hobsbawm.

A definição abarca personagens como Lampião no Brasil, Pancho Villa no México, Jesse James nos Estados Unidos, Robin Hood na Inglaterra, entre outros. Todos eles foram protagonistas de histórias míticas, que tiveram uma relação dupla com o poder, desafiando as definições maniqueístas e se estabelecendo como poderes paralelos, que ocupavam espaços que a lei do Estado não conseguia alcançar. A existência desses bandidos esteve sempre relacionada à oposição à ordem que se pretendia estabelecer contra as forças arcaicas predominantes.

bandidos capaBandidos,

Eric Hobsbawm, tradução de Donaldson M. Garschagen, editora Paz e Terra, SP, 2010, 254 págs.

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Um pensamento sobre “Banditismo social

  1. Quando leio a sua coluna, sinto tanto por nao ter mais tempo livre p a leitura…pois todos os seus textos instigam todo o meu universo de curiosidade em ler tudo…rs

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