O que mostram os rolezinhos

Se são tolos e ocupam as páginas da imprensa, as atuais discussões das pessoas e este texto que escrevo, os rolezinhos são interessantes por mostrarem muito claramente alguns hábitos dos personagens envolvidos na história. Para quem a acompanha ficam muito nítidas duas coisas: os jovens estão bem sem imaginação para passeios melhores e troca de ideias maiores; o governo anda sensível e impulsivo à formação de quaisquer grupos reunidos com quaisquer objetivos – e mesmo aos grupos que se reúnem sem objetivos.

Em todas as matérias que vi sobre os rolezinhos desde que os eventos começaram a repercutir em dezembro do ano passado, não li a respeito de nenhuma ocorrência de vandalismo, mesmo quando número maior de jovens se reuniu. Vi apenas o número de seguranças, e depois de policiais, aumentando, aumentando, até que jovens que nada fizeram foram levados às delegacias aparentemente apenas para renderem algumas linhas aos jornais, que reproduziram: “Não houve registro de roubo ou vandalismo. X jovens foram levados à delegacia e em seguida foram soltos”. Atos desnecessários geram notícias desnecessárias.

O que os rolezinhos fazem é aglomerar os mesmos jovens que já circulavam pelos shoppings da cidade para paquerar e se divertir. Acontece que quando estes jovens se reúnem “transformam-se em um perigo”, é o que parecem pensar e dizer as autoridades e os que reclamam do fenômeno rolezinho, que provavelmente minguará em pouco tempo, assim que perder as páginas dos jornais e da internet para outro acontecimento do gênero.

O evento, inclusive, é um ótima oportunidade para os que não gostam da presença desses jovens nos shoppings – nem juntos, nem separados – reclamarem. Se as dondocas que circulam avulsas no Iguatemi resolvessem se reunir para um rolezinho – um footing coletivo, melhor dizendo –, será que o caso seria tratado pela mesma imprensa e pelas mesmas autoridades que discutem medidas para os rolezinhos como acontecimento cômico ou como evento socialmente perigoso?

“Enquanto seguranças barravam as madames, lojistas permaneceram atentos a qualquer aglomeração. A orientação da administração foi fazer, quando necessária, verificação da documentação, no no caso da formação de grupo de dondocas”. Eu retirei o trecho repleto de “ãos” de um jornal de domingo, substituindo apenas a palavra adolescentes por madames/dondocas. Você consegue imaginar uma matéria assim nos jornais? Com a versão madames e dondocas? Eu não.

Dia desses passei perto de uma loja chique que estava em liquidação de início de ano e acho que apenas naquele quadrado havia o mesmo número de pessoas que compunham todo o rolezinho do Shopping Itaquera em São Paulo. Aquelas pessoas que corriam afoitas com várias peças de roupa caindo dos braços, olhos esbugalhados e muita pressa não eram jovens. Elas pareciam alteradas e perigosas, mas não havia seguranças ou policiais as levando para delegacias.

Os shoppings são o símbolo-mor da diferenciação das esferas sociais. Veja o exemplo do shopping Cidade Jardim, em São Paulo, que foi projetado sem entrada/saída para pedestres. Apartheid semelhante só em motéis, mas estes ainda contam com a desculpa da privacidade, a mesma benesse que parecem desejar os frequentadores estrelados que frequentam shoppings sem lembrar que estes locais são públicos.

Muitos shoppings estão barrando a entrada de jovens desacompanhados dos pais. Mas, se o shopping é o único lugar que alguns preocupados pais deixam seus filhos pré-adolescentes e adolescentes frequentarem sozinhos, não é de dar pena a decisão radical tomada pelos estabelecimentos? É uma clara contribuição à construção do jovem babaca, sempre grudado nas calças dos responsáveis porque “se ficar solto faz bobagem”. E quem não faz? E quem não fez? Poupar os jovens de se ajeitarem com os problemas que criaram ou poupar os jovens de criarem seus próprios problemas e pagarem por isso é sinônimo de um processo educacional fechado, burro e ineficaz, porque a opressão, e não os pequenos problemas, é que causa as situações realmente problemáticas e irreversíveis.

O momento parece oportuno para que o governo pense em oferecer à população uma boa carta de programações culturais, cursos, debates e oficinas com os artistas que o pessoal dos rolezinhos admira – geralmente rappers, MCs e outros ícones com os quais os garotos e garotas da periferia se identificam. E por que não aproveitar esses eventos, realizados planejadamente em espaços amplos e públicos, como parques e praças da cidade, para apresentar à juventude outros tipos de representantes culturais, de variados estilos? Fica a deixa.

Ademais, shopping é lugar de compras. Não existem lugares mais interessantes para encontros, diversão e passeios? Quem sabe os rolezinhos de hoje não induzam as pessoas, jovens, famílias e os mais velhos a olharem mais para suas cidades e assim optarem por “dar um role” pelos diferentes locais que elas abrigam? O rolezinho é bom. Quem não gosta de sair para dar um role? O que queremos são rolezinhos diversificados, rolezinhos para todos os gostos, sem repressão, sem preconceito.

 

Marina Moura2Marina Moura

E-mail: mmourabarreto@gmail.com

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