Narrativas a dois

De início, pode parecer que narrativas estão presentes apenas em romances, contos, novelas e textos afins, mas se o leitor procurar narrativas na própria vida e naqueles que o cercam vai encontrar farto material. É isso o que a pessoa faz quase sem querer quando conta uma fofoca que, no caso, é uma narrativa deletéria. Mais do que uma marca de textos literários, as narrativas são as nossas construções com palavras e símbolos para dar sentido à vida.

Narrativa construída a dois pode ser romance, com paixão, amor, ódio ou todos esses ingredientes misturados. Só indiferença não pode ser, já que a pessoa indiferente é aquela que não quer construir a narrativa com o outro.

Uma das marcas registradas do tempo que estamos vivendo são as narrativas dos casais que se conhecem nos sites de relacionamento. O namoro acontece quando cada um em sua telinha concorda em compartilhar uma história em comum, o que, digamos, é raro acontecer. Mas os sites de relacionamento, com um mundo de perguntas e estatísticas que levam o usuário à exaustão, querem nos fazer crer que é possível encontrar alguém altamente compatível.

Chris McKinlay, 35 anos, estudante de mestrado em matemática aplicada da Universidade da Califórnia, a famosa UCLA, em Los Angeles, levou o desafio da compatibilidade ao extremo, conforme noticiou na semana passada a revista ‘Wired’, publicação norte-americana voltada à cultura digital.

Depois de verificar sua baixa popularidade no site de relacionamento OKCupid e a fragilidade dos parâmetros do sistema de busca de compatibilidade, McKinlay hackeou o site e criou 12 perfis falsos gerenciados por um script para colher informações de possíveis parceiras, dentro do grupo de mulheres heterossexuais ou bissexuais de 25 a 45 anos. O estudante, que transformou esse trabalho em sua tese de dissertação, desenvolveu um banco de dados para interagir no site e enviou seis milhões de perguntas que foram respondidas por 20 mil mulheres em todo o país.

Ao concluir a pesquisa, McKinlay teve encontros com 55 mulheres altamente compatíveis, mas apenas um desses encontros bateu no coração e teve energia para prosseguir, que foi com a artista Tien Wang, de 28 anos. Todo o aparato técnico montado pelo matemático chega ao fim como se fosse novela de tevê, pois ele disse em entrevista à Wired que se casa em breve. Como tantas pessoas que buscam uma relação, McKinlay fez o possível e o impossível para construir uma narrativa, que neste caso foi mais do que prodigiosa, apesar de só chegar ao fim pela via do encantamento que a paixão desperta com o contato olho no olho.

McKinlay e Tien Wang - Encontro graças à ciência da compatibilidade

McKinlay e Tien Wang – Encontro graças à ciência da compatibilidade

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