Sexo com muitos sentidos em ‘Pornopopeia’

Sexo, drogas e violência são uma combinação que excita a imaginação na literatura. Poucas obras, no entanto, vão fundo e com sinceridade nessa temática, preferindo as formas de narrativa mais polidas e aceitas. Esse, claro, não é o caso do escritor Reinaldo Moraes, que no romance ‘Pornopopeia’, de 2009, segue em primeira pessoa o percurso de um narrador verborrágico, imoral e egoísta que aparentemente só busca o prazer, mas acaba por colocar o leitor de cara com sua imbecilidade, essa rede de valores e compromissos do cotidiano que tem um papel castrador do desejo.

O título do livro é um neologismo a partir da união de ‘pornografia’ e ‘epopeia’, este último um termo que remete aos feitos heroicos de um personagem representante de um povo. Assim, o título e outros elementos indicam que a história tem referência ao clássico ‘Odisseia’, de Homero, poeta épico da Grécia Antiga.

Reinaldo Moraes: Significados para a epopeia (foto: Fernanda Rudmer)

Reinaldo Moraes: Significados para a epopeia (foto: Fernanda Rudmer)

Em quase 500 páginas e 36 capítulos, a narrativa em ritmo de fala (uma fala, aliás, que tem como combustível a cocaína, o uísque barato, a maconha, o sexo e tudo o mais que uma noite de esbórnia possa oferecer) também faz referência ao clássico de Homero, que é ligado à tradição oral. É claro que há uma subversão nessa referência, mas isso ocorre porque o romance de Moraes é uma forma de dar sentido à epopeia nos dias atuais.

Durante a leitura, o livro de Moraes também despertou em mim a lembrança de outra obra fundamental, o romance ‘Dom Quixote de La Mancha’, de Miguel de Cervantes (1547-1616), que parodiou as histórias de cavalaria da Idade Média, por meio de um narrador-herói maluco e delirante, recolocando também um novo sentido para epopeia na época.

O herói de ‘Pornopopeia’ é um cineasta maldito, José Carlos Ribeiro, o Zeca, que dirige uma produtora bancada pelo cunhado, a Khmer Vídeofilmes, e não tem nenhum pudor em sua busca por prazer em qualquer circunstância. Na narrativa solta, debochada, depravada e ao mesmo tempo poética, Zeca experimenta orifícios, mucosas, odores e secreções em geral, e fala de suas experiências sem qualquer freio.

Se décadas atrás o falso moralismo impedia as pessoas de desfrutarem o sexo, atualmente a ordem é gozar mais e mais, pelo menos esse é o bombardeio que está subentendido no discurso da mídia e que muitas vezes leva à depressão. O romance de Reinaldo Moraes, em seu exagero, cumprindo a ordem do sistema e ao mesmo tempo subvertendo-a, explora o lado oculto da vida, o lado que é alimentado pelos desejos proibidos e que o tempo todo nos ocupa a mente sem encontrar um canal para se manifestar.

 

Pornopopeia,

Reinaldo Moraes, editora Objetiva, RJ, 2009, 475 págs.

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2 pensamentos sobre “Sexo com muitos sentidos em ‘Pornopopeia’

    • Caro Galindo, as referências não são explícitas, não creio que o romance use essa “muleta”. A narrativa é um tanto quanto original, e só mesmo aos poucos você vai percebendo que o autor recoloca a questão da epopeia nos dias de hoje em seu atordoado e inconsciente caminho rumo ao prazer desmesurado e sem noção. Mas isso, certamente, pode não ser suficiente para criar empatia com o romance, que também soa como crítica a toda a ‘bestialidade’ que amarra a vida cotidiana. Creio que a construção com a linguagem pode mesmo acabar sendo mais interessante do que as referências que são encontradas na narrativa. abs,

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