Entre o prazer e a culpa

Roth - Crítica ao mundo fechado da cultura judaica

Roth – Crítica ao mundo fechado da cultura judaica (foto: divulgação)

O escritor Philip Roth, norte-americano de origem judaica e ganhador de diversos prêmios literários, entre eles o Pulitzer de 1998 com ‘Pastoral Americana’, esteve na imprensa de língua inglesa nas últimas semanas reafirmando sua decisão anunciada em 2012, de não escrever mais ficção. “Desde 2009 não tenho escrito uma palavra de ficção”, afirmou ele a uma jornalista, depois que ela perguntou se o talento permitiria que ele se afastasse do mundo da literatura.

Perto de completar 81 anos no próximo dia 19, Roth é considerado um dos maiores escritores dos EUA na segunda metade do século 20. Em seus livros, a crítica ácida ao mundo moralista, preconceituoso e mesquinho da comunidade judaica na terra de Tio Sam tem muito a dizer para o público atualmente, sobretudo se o leitor em questão é dos que prefere obras sensíveis e perturbadoras ao entretenimento fácil dos romances de paixão e sexo burguês oferecidos nas vitrines das livrarias.

Para conhecer a obra de Roth, um bom ingresso é ‘Complexo de Portnoy’, novela publicada originalmente em 1969 e que o tornou famoso no mundo da ficção. Apenas nos dois primeiros dias de seu lançamento a obra vendeu 250 mil cópias, recheando a conta bancária de Roth, que até então tinha publicado apenas dois de seus trinta títulos de ficção.

A narrativa traz o depoimento de Alex Portnoy, um jovem advogado, a seu analista, remontando sua vida desde o período de infância. Alex se mostra sempre movido por desejos perversos, ao mesmo tempo em que se confronta com o sentimento de culpa tão incutido no indivíduo pela presença forte de pais superprotetores e preconceituosos.

A história foi um escândalo para a comunidade judaica quando foi publicada. Negando-se a seguir os preceitos da religião, o narrador de Roth prefere a vida errante do prazer sexual, mostrando desde a mais tenra idade a vocação para se masturbar e sair pela vida atrás de mulheres em busca do prazer de teor carnal, sem o encantamento do amor.

A primeira característica que o leitor notará no ‘Complexo de Portnoy’ é a presença da mãe que afaga e ameaça o tempo todo, como se para a criança nunca se tornasse possível tomar suas próprias decisões. A mãe surge assim como alguém que incute o medo de punição, e fica óbvio para o leitor o forte traço autobiográfico da obra. Por conta desse livro, Roth é considerado um escritor corajoso. De fato, a narrativa mostra o quanto é preciso ser sincero e pagar um preço para escrever uma boa história.

Complexo de Portnoy - capa2Complexo de Portnoy,

Philip Roth, tradução de Paulo Henriques Britto, Companhia de Bolso, SP, 2013, 408 págs.

Leia este trecho da edição do Círculo do Livro, com tradução de Cezar Tozzi (págs. 62 e 63):

“… A religião é o ópio do povo! E se acreditar nisso faz de mim um comunista de catorze anos, então é exatamente o que sou, com muito orgulho! Preferiria ser comunista na Rússia do que um judeu na sinagoga – digo isso bem na cara do meu pai.  Foi outra granada na barriga dele (conforme eu pressentia); lamento muito, mas acontece que acredito nos direitos do homem, direitos que na União Soviética são extensivos a todas as pessoas, independente de raça, religião ou cor. Devido ao meu comunismo é que insisto agora em comer com a faxineira, quando volto para almoçar nas segundas-feiras e dou com ela – como junto com ela, mãe, na mesma mesa e da mesma comida. Está bem claro? Se para mim tem resto de carne assada requentada, então ela ganha resto de carne assada requentada, e não queijo ou atum, servidos em prato de vidro especial para não absorver os germes dela! Mas nada disso, ao que parece, mamãe chega a compreender; é esquisito demais para ela. Comer junto com a schwartze? Que história é essa, a minha? “Espere”, cochicha ela para mim no corredor, no instante em que volto da escola, “a moça vai acabar dentro de poucos minutos…” Mas eu é que não tratarei nenhum ser humano (fora da minha família) como inferior! Será que você não consegue compreender um pouco do princípio da igualdade? Com os diabos! E digo-lhe mais, se ele [referindo ao pai, corretor de seguros] usar outra vez a palavra “negro” na minha presença, enfio-lhe um punhal de verdade no seu maldito coração de fanático. Ficou bem claro para todo mundo? Estou pouco ligando que suas roupas fiquem tão fedorentas quando ele volta para casa após cobrar o débito dos negros, que têm de ser dependuradas no porão para secar. Estou pouco ligando que eles quase o ponham maluco deixando o seguro atrasar. Essa é apenas mais outra razão para ser compassivo, ora bolas, ser cordial e compreensivo e deixar de tratar a faxineira como se ela fosse alguma besta de carga, sem a mesma paixão por dignidade que outras pessoas têm!”

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