Amor que acompanha

De todas as palavras da linguagem, a que mais me intriga é ‘amor’. Ela expressa a nossa humanidade como poucas. Pois se existe sentido para tudo o que criamos na civilização, com o ‘amor’ o sentido é aberto: a princípio está ausente e o sujeito passa a vida tentando encontrar significados para esse sentimento nobre, capaz de transformar sua existência.

Há tempos convivo com essa ideia, e por isso fui entrevistar o professor da PUC-SP e psicanalista Claudio César Montoto para que ele falasse sobre o amor nos dias de hoje. Montoto é autor de livros sobre o tema. O último deles, ‘Amor. Metáfora Eterna’, de 2012, resgata os sentidos da palavra desde Epicuro e Platão, na Grécia Antiga, passa por autores da psicanálise, como Sigmund Freud e Jacques Lacan, e faz uma leitura do que acontece na sociedade, que ele chama de “hipercapitalista”.

Montoto – Renúncia à paixão para alçar o amor (foto: divulgação)

Montoto – Renúncia à paixão para conquistar o amor (foto: divulgação)

“Eu diria que o amor é uma metáfora para o mundo, tudo na vida é motivado pelo amor”, afirma Montoto. Ele lembra que em Lacan o conceito de amor se relaciona a uma produção social, o que quer dizer que a experiência amorosa se articula com valores da cultura e, assim, o que importa é o amor romântico, a ideia de que a pessoa pode encontrar completude, a fusão com o outro, no estado de paixão. “Acreditamos que sempre existe a pessoa ideal e isso tem como resultado lançar o sujeito no processo de algo fadado ao fracasso”, afirma.

“É preciso lidar com a incompletude para viver. Somos sozinhos e morremos sozinhos, isso é o contrário da completude”, diz Montoto. Para ele, o amor se insere em um contexto no qual a cultura empurra o sujeito no sentido da felicidade. “Mas não existe o estado absoluto e permanente de completude”.

O pré-requisito para se apaixonar é a ignorância sobre o outro. A paixão acontece pela via do desconhecimento. E sempre há um traço que faz com que o ser amado seja capturado: um cheiro, um olhar. “A paixão pode ser um estado de se amar no outro. Pode ser um ideal de corpo, e neste caso há uma ditadura, como é o caso da barriga de tanquinho”. Esse é um ideal compartilhado, um valor que muda o olhar. Todos desejam a tal barriga para estarem prontos para a paixão.

A verdadeira experiência amorosa, segundo Montoto, é construída a dois, no derrocar da paixão, a partir do conhecimento do outro, quando se dispõe a ter uma história em comum admitindo as diferenças. “Para amar é preciso renunciar à paixão e o primeiro passo em sua conquista é aceitar o desapontamento com o outro. O amor que acompanha pode se sustentar por toda uma vida, mas o mundo capitalista diz para o sujeito não renunciar a nada”.

Amor. Metáfora Eterna,

Claudio César Montoto, editora Bluecom, São José do Rio Preto, SP, 2012, 103 págs.

Onde encontrar: cmontoto@ig.com.br

Ou na Livraria da Vila: http://www.livrariadavila.com.br

 

Confira a seguir a íntegra da entrevista com Claudio César Montoto:

Entre as palavras da linguagem, não seria o ‘amor’ uma das poucas em que não há um sentido? Ou seja, inventamos uma palavra para algo que não existe e o sujeito passa a vida tentando encontrar seu significado?

O que é o amor? Em ‘O Banquete’, de Platão, Sócrates diz “a minha vida é só refletir sobre o amor”. Eu diria que o amor é uma metáfora para o mundo, tudo na vida é motivado pelo amor, é verdade, cada um busca dar um sentido para isso. Em Lacan, o conceito de amor se articula com uma produção social. É claro que é por meio de suas próprias tentativas que a pessoa que vai responder o que é o amor, mas essa experiência é articulada com a cultura e o mundo capitalista tenta difundir a perspectiva do romantismo do amor, a ideia de que a pessoa pode encontrar a completude, que sempre existe a pessoa ideal e essa ideia tem como resultado empurrar o sujeito no processo de algo que fadado ao fracasso, pois é uma ideia dada a partir do consumismo.

A felicidade não existe?

‘Você tem que ser feliz’, esse é o imperativo que se coloca para o sujeito, que na realidade fica em estado de abandono em meio aos objetos de consumo. É preciso lidar com a incompletude para viver. Somos sozinhos e morremos sozinhos, isso é a antítese da completude. O amor insere-se em um contexto complicado porque o mercado empurra o sujeito no sentido da ilusão de felicidade. Não existe o estado absoluto de completude. Lacan diz “não procure a felicidade pelo mal que ela traz”. Ele assim indica que a cultura relaciona o amor com o estado de completude, o que quer dizer que existe uma crença de que somente no estado de paixão podemos encontrar a felicidade.

Mas se apaixonar não é inevitável?

O pré-requisito para se apaixonar é a ignorância, a ignorância sobre o outro. A paixão acontece pela via do desconhecimento do outro. E sempre há um traço que faz com que o outro seja capturado: um cheiro, um olhar… Nessa nossa conversa, estamos falando sobre como o amor se inscreve no inconsciente do sujeito, despejando sobre o outro anseios e ideais. Amor é como se fosse milagre na paixão. Pode ser um estado de se amar no outro. Pode ser um ideal de corpo, e neste caso há uma ditadura que oprime o sujeito, como é o caso da barriga de tanquinho. Esse é um ideal compartilhado com a cultura, um valor social que muda o olhar, todos desejam a barriga de tanquinho para estarem prontos para a paixão. A paixão é o processo de se amar no outro. Não se lida com o outro com suas diferenças, mas como uma parte de si mesmo. Os especialistas, os psiquiatras, que gostam de fazer cálculos dizem que a paixão dura de um e meio a dois anos. Não importa o tempo, o que é relevante é que a paixão está fadada ao fracasso. Não é uma questão de tempo, conhecer o outro é o mesmo que se desapontar com o outro. Então, as coisas começam a mudar se no percurso da paixão você percebe que apesar de o outro ser diferente pode-se construir um vínculo com ele.

A paixão não seria também uma fuga da castração que nos é imposta pela ordem simbólica?

A psicanálise nos ajuda a compreender que a paixão pode ser conduzida pela perversão, surgindo como uma forma de driblar a castração. A pessoa apaixonada não liga para a família, nem para os amigos, a ordem social para ela fica fora de questão. Esse pessoa também não precisa lidar com a falta, esse vazio interior que está em cada um de nós, que nos constitui. O mundo hipercapitalista diz que a pessoa sempre deve se apaixonar. A paixão é o motor do consumo. Mas quando o verniz da paixão começa a derreter surge aquela frase “você não é como eu achava que fosse”. Nesse momento, o olhar para o outro começa a mudar, afinal, a paixão não é o estado natural do ser humano, mas um estado de ilusão em que o sujeito apaixonado sonha que não precisa lidar com o outro, com suas diferenças, pois ele é igual ao sujeito apaixonado. Você pode viver sempre apaixonado, substituindo um por outro. Mas aí não se pode construir a relação amorosa de fato. Se acabo um relacionamento e começo outro, não há projeto de vida.

A paixão é o amor líquido, não?!

No livro ‘Amor líquido’, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman fala da flutuação do fato de se estar constantemente apaixonado. Estar sozinho é representado como um fracasso e não como um estado necessário para a reflexão. A paixão é articulada com a lei de consumo dada pelo mercado – o celular fica obsoleto e o mercado vem pra isso, ou seja, compensar as quebras de ilusão. Quando a paixão cai, porque você começa a conhecer o outro, instala-se o desafio de criar o vínculo amoroso com o mesmo objeto, mas para isso é preciso reconhecer que o outro não é a completude. Nós não somos a completude para ninguém. Desça do salto porque você não é a completude para ninguém.

Mas que tipo de vínculo se pode construir?

Certamente, é o amor que acompanha. Para fazer parte da cultura, o sujeito renuncia à questão puramente física e busca estabelecer um laço mais elevado. E a literatura aborda tudo isso com liberdade. Veja o caso dos ‘encoxadores’ do Metrô. É o que todos fariam se pudessem deixar sua pulsão fluir. Assim, você deve observar que o amor tem um caráter sublimatório. O amor é uma suplência ao ato sexual puramente, é uma construção social que permite que eu tenha o outro sendo castrado. Mas a lógica do consumo diz para você sempre ter o estado de paixão que é o melhor, e quando a paixão acaba, você a substitui por outra. A pessoa fica obsoleta na sua vida, como se fosse um aparelho celular.

Mas e quando a paixão desemboca no ódio?

O desenlace da paixão pode ser também o ódio e há casos em que às vezes ele chega a unir mais do que o amor. Há casais que ficam juntos por ressentimento ou rancor, para cobrar um do outro as dívidas imaginárias assumidas, afinal, no ódio também se realiza o desejo. O ressentimento é um sentimento que se articula com a vingança e por isso não prescreve. Ele advém de um estado de paixão que não foi sustentado, porque sobreveio o conhecimento do outro, levando o sujeito a abandonar aquele estado inicial de prazerosa ignorância.

Relacionamentos superficiais são um sintoma do nosso tempo?

Neste início de século 21, é o desejo de estar apaixonado, logo, desejo de ignorância que prevalece. Os relacionamentos são superficiais, sua importância ocorre como se fosse medida pelas estatísticas, é mais importante a quantidade do que a qualidade. A metáfora do amor persiste e se desdobra no desconhecimento, quanto maior o desconhecimento, maior a ilusão de que se pode alcançar a completude. Mas para amar é preciso renunciar à paixão. Com certeza, em suas atitudes, haverá quem demonstre que amor é menos que paixão, mas o amor é construído a dois e o primeiro passo em sua conquista é aceitar o desapontamento com o outro. O amor que acompanha pode se sustentar por toda uma vida, mas o mundo capitalista diz para o sujeito não renunciar a nada.

Essa fluidez do amor é sintoma comum no divã?

Hoje em dia, o divã recebe analisantes que substituem uma relação por outra sem realizar um trabalho de luto quando a relação termina. O processo de luto significa um tempo para a reflexão, quando o sujeito fica consigo próprio para avaliar o que o outro levou dele com o fim da relação, afinal, só sabemos o valor da relação quando perdemos a pessoa desejada.

No seu livro você fala do amor como experiência e da paixão como vivência…

Existe um paralelo entre a paixão e o amor, pois enquanto a primeira está para a vivência (da quantidade, do próprio prazer) o amor é da ordem da experiência, no sentido da troca com o outro e da articulação conjunta de uma história. Na paixão, não há nenhum tipo de reflexão, a vivência é aquilo que mantém o sujeito em estado de ignorância. Nós podemos dizer que a diferença entre paixão e amor está para a diferença entre informação e conhecimento e entre vivência e experiência. As questões envolvidas pela experiência são algo mais articulado. Se você vai assistir a cinco filmes em um fim de semana, você terá apenas uma vivência, mas se você investe seu tempo em um diálogo, na conversa com o outro, você necessariamente troca experiências.

A literatura também não deixa de ter essa perspectiva do diálogo.

O escritor Umberto Eco fala da experiência do texto literário da perspectiva do leitor, que encontra diferentes formas de lidar com a literatura e que ela mostra diferentes possibilidades de mundo. A literatura no campo da experiência sempre mente, mas mentindo nos diz a verdade.  Os escritor Mario Vargas Lhosa escreveu ‘A verdade das mentiras’, uma obra em que ele defende a literatura como possibilidade de transformar a realidade. A literatura mostra para o leitor as diferentes construções de mundo, é uma experiência por excelência. Ser leitor é estar disposto a realizar um trabalho. A fantasia a partir do texto realiza um trabalho de sublimação e permite lidar com questões para as quais existem barreiras.

E qual seria a relação da literatura com a perversão?

A perversão captura o neurótico, afinal, o perverso realiza a fantasia que todos gostariam, mas recuam porque têm a estrutura neurótica. Veja, por que Paulo Maluf e Fernando Collor continuam a ser votados?! Eles são os perversos que nós gostaríamos de ser e a literatura vem um pouco para suprir ou trabalhar esse lado dentro de cada um de nós.

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3 pensamentos sobre “Amor que acompanha

  1. O amor que acompanha é ao mesmo tempo o amor que aceita o outro como o Outro, o outro como individuo solitário, de gostos diferentes, com manias estranhas. O amor que acompanha é o amor que liberta. Este é o amor que acompanha: que fica junto quando o outro precisa, mas que também sabe deixar o outro consigo mesmo para que ele possa descobrir o seu melhor. O amor que exige a completude, a panela e a tampa, a metade da laranja não é amor: realmente é como já disse Montoto em seu livro: ” castração, equívoco. Gostei da entrevista!!! parabéns!!

  2. Adorei essa outra visão do Amor, que o Claudio tão bem compartilha conosco.
    Quem conhece o Claudio e a Rosana tem o privilégio de entender esse sentimento na prática. O amor sem castração.
    Também pincei um texto do Professor Eugênio Mussak sobre amor e razão, que divido com vocês…

    “O amor não se sustenta sem a intenção de amar e sem a ação pequena, mas constante, de alegrar o outro com sua presença. Acredito que o amor é uma grandeza que não se sustenta com o tempo. Ou aumenta ou diminui. Qual é, afinal, sua intenção?”
    – See more at: http://eugeniomussak.com.br/o-amor-e-racional/#sthash.ojyJ5qdd.dpuf

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