São Miguel Paulista recebe mostra de teatro de rua

Fazer teatro na rua é muito diferente de fazê-lo no palco, garante a atriz Selma Pavanelli, do grupo Buraco d’Oráculo. “A relação com o público é direta”, diz. Há, ainda, a questão do alcance. “Todos, na rua, podem ter acesso ao teatro, à arte. Seja morador de rua, advogado ou desempregado.” O teatro de rua, enfim, é uma obra aberta à intervenção espontânea do público – o que aponta para uma postura política de quem o faz. “É democrático. Há quem só vê teatro na rua”, sintetiza a atriz.

O Buraco d’Oráculo optou pelo teatro de rua desde seu nascimento, em 1998, e programou a VIII Mostra de Teatro de São Miguel Paulista, em São Paulo, para 4 a 13 de abril. São 12 espetáculos na Praça do Casarão, ao lado da Estação Jardim Helena-Vila Mara da Linha 12 – Safira da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). A programação, gratuita, inclui artistas da Argentina e das cinco regiões do Brasil. Agenda completa, com sinopses, datas e horários: http://www.buracodoraculo.com.br.

O Baile dos Anastácio (de Luís Alberto de Abreu, direção de Claudia Sachs), da Oigalê: bom humor

O Baile dos Anastácio (de Luís Alberto de Abreu, direção de Claudia Sachs), da Oigalê: bom humor

Apresentam-se os grupos Parlendas (São Paulo, SP), Nu Escuro (Goiânia, GO), Mamatchas (Presidente Prudente, SP), Lamira (Palmas, TO), Dell’Arte (Catanduva, SP), Ás de Paus (Londrina, PR), Pato Mojado (Rosário, Argentina), Estável (São Paulo, SP), Garajal (Maracanaú, CE), Cafuringa (Recife, PE), Mamulengo da Folia (Guararema, SP) e Oigalê (Porto Alegre, RS). Mestres de cerimônias – Pato e Laranjinha (Macapá, AP) e J. E. Tico (São Paulo, SP) – fazem breves intervenções circenses antes de cada apresentação.

Existe, porém, uma controvérsia que, segundo Selma, restringe as manifestações artísticas nas ruas paulistanas. O decreto nº 54.948, assinado pelo prefeito Fernando Haddad e publicado no dia 20, regulamenta a lei nº 15.776, de 29 de maio de 2013, que dispõe sobre a apresentação de artistas nos logradouros públicos do município. Para a atriz, trata-se de um “retrocesso”. “O teatro de rua está a cada dia mais político, e talvez isso incomode um pouco”, sugere. O Movimento de Teatro de Rua de São Paulo (MTR/SP) agendou reunião para o dia 31 a fim de debater o decreto.

O artigo 2º do decreto exige “autorização provisória” da “Subprefeitura responsável pela área na qual se dará a apresentação de trabalho cultural” até que portaria da Secretaria Municipal de Cultura discipline “as manifestações, atividades e apresentações culturais de artistas de rua em vias, cruzamentos, parques e praças públicas”. Cabe ao interessado na autorização provisória cadastrar-se na Subprefeitura e “entregar proposta de apresentação de trabalho cultural contendo informações relativas à identificação do artista, aos locais e horários do evento e aos equipamentos a serem utilizados”. Não há essas determinações no decreto nº 52.504, assinado pelo então prefeito Gilberto Kassab, publicado em 19 de julho de 2011 e revogado pelo nº 54.948.

A Exceção e a Regra (de Bertolt Brecht, direção de Renata Zhaneta), da Cia. Estável: engajamento

A Exceção e a Regra (de Bertolt Brecht, direção de Renata Zhaneta), da Cia. Estável: engajamento

Além disso, não são permitidas apresentações a menos de 5 metros de pontos de ônibus e táxis, de orelhões, de entradas e saídas de estações de metrô e trem, de rodoviárias e de aeroportos e de monumentos tombados. Também são vetadas a menos de 20 metros das “feiras de arte, artesanato e antiguidades devidamente criadas e oficializadas pelo Poder Público” e de “portões de acesso a estabelecimentos de ensino” e a menos de 50 metros de “hospitais, casas de saúde, prontos-socorrros e ambulatórios”. Estão impedidas, ainda, em frente a guias rebaixadas e a portões de acesso a edificações e repartições públicas e a quartéis.

Uma política pública para o teatro de rua é “essencial”, diz Selma. “Assim podemos estudar, pesquisar, desenvolver um trabalho de melhor qualidade.” A mostra foi contemplada pelo Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria de Estado da Cultura, mas a atriz considera as leis de incentivo à cultura insuficientes. “Há grupos surgindo a cada ano. A demanda aumenta, e a verba não acompanha. O teatro não é autossustentável, fazemos na rua de graça.” O Buraco d’Oráculo encara o teatro como meio de expressão, não como mercadoria. “A arte contribui para aquilo que queremos dizer. Nossos espetáculos são políticos, têm a nossa opinião, o nosso ponto de vista sobre a sociedade.”

 

Mauro Fernando2Mauro Fernando maurofmello@yahoo.com.br

Web: http://rotunda.zip.net/

Facebook: https://www.facebook.com/mauro.fernando.5030

 

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