Trilho infinito

Um trilho infinito é tudo o que São Paulo precisaria para sair da enrascada de trânsito e crise de mobilidade que toma conta da cidade a cada dia. Mas diante de sua impossibilidade, foi como sonho e imagem no espelho que o trilho infinito se materializou na instalação ‘Vitrine Arqueológica’, em exposição no mezanino da estação Adolfo Pinheiro, da Linha 5-Lilás do Metrô, que em fevereiro começou a funcionar sob operação assistida.

A instalação surgiu a partir de dois tramos (trilhos mais dormentes) encontrados durante as escavações para a construção da nova estação. Nas mãos do especialista em preservação e restauração de patrimônio cultural Cezar Roberto Olandim, o achado arqueológico, que há cem anos fez parte da linha Santo Amaro – São Paulo, foi restaurado em seu estúdio em São Luiz do Paraitinga, depois de um trabalho cuidadoso que durou quatro meses para retirar todas as incrustações do material.

Vitrine Arqueológica – Ideia inspirada em memórias de infância

Vitrine Arqueológica – Ideia inspirada em memórias de infância (foto: divulgação)

Para ampliar a visibilidade do material histórico, Olandim colocou o trilho entre dois espelhos contrapostos, provocando a ilusão de uma linha infinita. “A ideia surgiu das lembranças de minha infância, quando meu pai me levava para cortar os cabelos e eu ficava maravilhado vendo a minha imagem se multiplicar ao infinito com o fenômeno de reflexão causado entre dois espelhos contrapostos; quando realizei a primeira maquete do trilho entre os espelhos, pensei: ‘fechou, é isso!’”.

Olandim conta que a proposta para o desenvolvimento da ‘Vitrine Arqueológica’ foi tornar um simples trilho de bonde em algo atrativo. Para viabilizar o projeto, ele desenvolveu uma ponte volante de 8 metros de comprimento por 3,5 metros de altura, com uma capacidade para uma tonelada, para poder movimentar e transportar os trilhos para o vão aberto no mezanino, onde ele finalmente foi fixado.

Um aspecto curioso nesse processo é o intervalo entre os antigos e os novos trilhos, de exatos cem anos entre as duas inaugurações, um fenômeno que no mínimo faz pensar na teoria do ‘eterno retorno’, propalada pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900): “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência…”, afirma do demônio que personifica o pensamento do aforismo 341, de ‘A gaia ciência’, obra clássica do filósofo alemão.

(Colaborou Everaldo Fioravante)

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