Novo trabalho de Lourenço Mutarelli estreia no Sesc Consolação

Por Mauro Fernando

maurofmello@yahoo.com.br

 

O quadrinista, escritor e dramaturgo Lourenço Mutarelli é dono de obra que escapa de modelos comerciais, com atmosferas densas e personagens atormentados. Transubstanciação e Sequelas são duas de suas HQs. Já teve três romances adaptados para o cinema: O Cheiro do Ralo (direção de Heitor Dhalia), O Natimorto (de Paulo Machline) e A Arte de Produzir Efeito sem Causa (rebatizado Quando Eu Era Vivo, de Marco Dutra). Mário Bortolotto adaptou O Natimorto para o teatro. O livro O Teatro de Sombras reúne cinco peças de Mutarelli.

A Hora Errada, trabalho dramatúrgico inédito de Mutarelli, estreia em 8 de maio no Sesc Consolação, em São Paulo. Tomás Rezende assina a direção. Magali Biff e Zémanuel Piñero interpretam Dolores e Horácio, que vivem sob um regime de exceção – a Nova Ordem, um governo mundial único, uma ditadura em escala global –, em meio ao colapso econômico e à escassez de recursos naturais. Dolores trabalha em uma tinturaria e obtém para Horácio uma entrevista de emprego. Ele recebe uma proposta enigmática, que é revelada pouco a pouco e o faz pensar em abandonar seus valores.

Magali, Piñero e os limites éticos na busca pelo domínio das coisas (foto: divulgação)

Magali, Piñero e os limites éticos na busca pelo domínio das coisas (foto: divulgação)

Rezende relata que 1984, de George Orwell (1903-1950), é uma das referências de A Hora Errada. “Há uma dimensão apocalíptica na peça. Um regime totalitário que controla tudo, confiscou o dinheiro, interrompeu as linhas telefônicas e abafa a resistência”, diz. A grande referência, no entanto, é Fausto, de Johann von Goethe (1749-1832) – o contrato selado entre Mefistófeles e Fausto traz à tona os limites éticos na busca pelo conhecimento. “Horácio cai na sedução, vai se enredando, é encurralado. E sua vida entra no jogo, ou como vítima ou como carrasco.”

O sistema político surge no início do espetáculo como antagonista. Isso, porém, muda quando Dolores percebe o dilema que Horácio vivencia – ela, então, assume o antagonismo. Conforme o diretor, A Hora Errada sublinha “o jogo de forças e contraforças dos personagens”. “A peça aborda o desejo e os vetores contrários que o desejo carrega. Faz as pessoas refletirem sobre o próprio instinto assassino.”

Rezende evoca texto de Mutarelli incluído no programa da peça que ajuda a entender a origem dela e os impasses de Horácio: “Meu pai era um artista frustrado, que virou um policial e que nesse trabalho torturava pessoas. (…) Eu não consigo entender como uma pessoa faz isso e se mantém, tem estrutura e consegue se isolar, se distanciar disso e viver uma vida aparentemente comum”. “Horácio entra na lógica do sistema, mas fica angustiado”, conta o diretor.

 

SERVIÇO

A HORA ERRADA. De Lourenço Mutarelli. Direção de Tomás Rezende. Com Magali Biff e Zémanuel Piñero. No Sesc Consolação. Rua Doutor Vila Nova, 245, São Paulo, SP. Fone (11) 3234-2000. Quintas e sextas, às 20h. De 8/5 a 13/6. R$ 2 a R$ 10. Recomendação: 14 anos.

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