Teatro com inspiração em Brecht e contra tendências hegemônicas

Por Mauro Fernando

maurofmello@yahoo.com.br

O grupo Apoena nasceu em 1979, quando colocou em cartaz a peça ‘Mãos Sujas de Terra’. Mudou sua linguagem e até o nome, para Engenho Teatral, e dá sequência ao projeto Repertório em Revista no dia 10, com a reestreia de ‘Pequenas Histórias que à História não Contam’. ‘Em Pedaços’ e ‘Outro$ 500′ voltam ao cartaz, respectivamente, em agosto e novembro. Sempre na sede da companhia, no Clube Escola Tatuapé, em São Paulo, e com entrada franca.

O grupo, lembra o dramaturgo e diretor Luiz Carlos Moreira, circulou no circuito tradicional até 1993, indo à periferia esporadicamente. Mudou, então, a maneira de fazer teatro. A vinculação ao teatro épico, brechtiano, com conteúdos sociais e históricos, acabou por definir o deslocamento do Engenho para a periferia. E o diretor entende periferia “não como um lugar, mas como uma relação”. “O Brasil, por exemplo, é periferia” – quanto ao centro de tomadas de decisão em nível mundial. O grupo, enfim, escolheu trafegar na contramão do teatro hegemônico, convencional, e “procurar a população que não vai ao teatro”.

Peça tem vinculação ao teatro brechtiano, com conteúdos sociais e históricos (foto: divulgação)

Peça tem vinculação ao teatro brechtiano, com conteúdos sociais e históricos (foto: divulgação)

Moreira explica que os fundamentos brechtianos caracterizavam a cena e a dramaturgia da companhia no seu início de trajetória, mas o trabalho de ator era centralizado em Stanislavski. A interpretação psicológica foi deixada de lado em meados da década passada, com ‘Em Pedaços’. “O trabalho do grupo hoje é centrado em Brecht e na comédia popular”, conta. Mas, garante, não se leva ao pé da letra nem o dramaturgo e encenador alemão nem os personagens Arlequim (da commedia dell’arte), João Grilo (de Ariano Suassuna) ou João Teité (de Luís Alberto de Abreu), expressões da comédia popular. “Nossa realidade é outra.”

‘Pequenas Histórias que à História não Contam’ estreou no fim dos anos 1990 e trata, com visão crítica, da exclusão social. “A sociedade exclui pessoas e põe a culpa nelas próprias”, afirma o diretor. O modelo de sucesso individual, diz, sobrepõe-se aos projetos coletivos solidários e incita o jovem a ser “uma Gisele Bündchen, um Ronaldinho, um funkeiro ostentação”. Mas o mercado de trabalho não absorve todo mundo, e “a autoestima de muita gente vai para o dedão do pé”. “É um espetáculo instigante, que não termina de forma alegre. O público perde o rebolado.”

Cenas curtas e independentes formam ‘Em Pedaços’, que aborda o cotidiano da periferia. “Mas não se trata de uma crônica da periferia, não somos porta-vozes”, esclarece. A montagem trabalha temas como a mercantilização da vida humana. ‘Outro$ 500′, de 2008, surgiu de um mergulho nas obras de três pensadores brasileiros clássicos: Caio Prado Júnior, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. A companhia, pois, debruçou-se sobre a formação social e econômica do País. “O norte da peça é Caio Prado Júnior”, especifica.

O projeto Repertório em Revista – ‘Opereta de Botequim’ já encerrou temporada – conta com o Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo. Para Moreira, o Fomento, instituído em 2002, “deu (aos grupos) condições materiais de sobrevivência infinitamente superiores em relação ao que havia antes e uma certa estabilidade”. É necessário, frisa, porém não suficiente. “Melhorou as condições, mas não resolveu a precariedade (das condições de trabalho).”

A companhia ainda abre sua casa de 19 de julho a 10 de agosto para quatro trupes: Cia. do Feijão, Cia. do Tijolo, Coletivo Negro e Núcleo Bartolomeu. É a mostra anual Engenho Mostra um Pouco do que Gosta, realizada desde 2005. Brava Cia., Cia. Estável, Cia. Ocamorana, Cia. São Jorge, Fraternal Cia., Grupo Folias, Grupo Sobrevento, Kiwi Cia., Teatro de Narradores e Teatro União e Olho Vivo, entre outros, participaram das edições anteriores.

PEQUENAS HISTÓRIAS QUE À HISTÓRIA NÃO CONTAM. De 10/5 a 29/6. EM PEDAÇOS. De 16/8 a 28/9. OUTRO$ 500. Novembro e dezembro (datas a confirmar). Dramaturgia e direção de Luiz Carlos Moreira. Com o Engenho Teatral. No Clube Escola Tatuapé. Rua Monte Serrat, 230, São Paulo, SP. Fone (11) 2092-8865. Sábados e domingos, às 19h. Entrada franca. Recomendação: 14 anos.

 

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