Eles que se linchem

Em sua época mais reflexiva, menos produzida e mais contundente, há cerca de duas décadas, o cantor Caetano Veloso disse na música ‘O cu do mundo’ que a mais triste nação, na época mais podre, compõe-se de possíveis grupos de linchadores. O cantor compôs a música quando alguns poucos casos de linchamento chocaram a Bahia.

Hoje perdemos a conta dos casos de linchamento que enchem páginas de jornais e sites, além de serem exaustivamente repetidos na TV, unindo-se ao conteúdo das pessoas comuns que sacam seus celulares, fotografam, escrevem ou filmam em tempo real. Somos ou estaríamos caminhando para ser a mais triste nação vivendo na época mais podre?

Mesmo quando já existiam celulares conectados à internet e o afã no uso das redes sociais, o número de casos de linchamentos não se mostrava relevante a ponto de pautar a imprensa ou discussões acaloradas em almoços de famílias ou mesas de bar. Uma sequência de fatos parece ter desencadeado na população, sobretudo na de classe média, o gosto pelo comportamento justiceiro.

Quando uma pessoa é amarrada a um poste e apanha até sangrar com os aplausos de quem assiste – senão com suas porradas –, é sinal de que há algo podre no reino Tupiniquim. No início deste mês (3/5), a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, mãe de duas meninas, foi linchada por moradores do bairro de Morrinhos, no Guarujá, por ser confundida com uma mulher que supostamente sequestrava crianças para praticar “magia negra”.

Fabiane não foi a primeira e nem será a última vítima dos linchamentos que têm se tornado comportamento cada vez mais comum na sociedade. Antes dela, meninos foram acorrentados, estapeados e chutados em diversos locais do Brasil. Os motivos ou suspeitas de seus crimes chegariam a tornar a notícia engraçada não fosse a desgraça que vai por detrás e que geralmente relaciona-se com a desigualdade: xampus, passando por IPhones e desejados tênis Nikes, e até galinhas, são produtos de necessidade ou consumo que lhes rendem as surras e exposição midiática.

É interessante pensarmos sobre o direito a julgamento destes que estão sendo linchados e sobre onde esse rompimento da lei pode nos levar (ao cu do mundo, talvez). Se depender da impulsividade agressiva e tendência ao ódio de alguns, o país transforma-se numa grande fortaleza dividida por dois muros, dois mundos, ambos extremamente altos e hermeticamente fechados, incomunicáveis: a prisão dos pobres e a prisão de luxo dos ricos. “E se ela (Fabiane) fosse culpada?”, questiona-se Eliane Brum em artigo sobre o tema publicado no site do El País na segunda-feira (12/5).

A autora mostra como a valorização da inocência de Fabiane, que atingiu as pessoas como espécie de mea-tigela-culpa, mas apenas depois da moça ter morrido, pode ser um comportamento no fundo extremamente cruel. Se Fabiane fosse culpada, caberia o linchamento em lugar de um julgamento? “É a exacerbação da inocência que mostra o quanto nós – mesmo os que não lincham pessoas na rua – somos perigosos”, completa a jornalista.

No caso Fabiane há ainda um agravante. A imprensa noticiou que traficantes de Morrinhos, onde aconteceu o crime, executaram suspeitos de terem matado a mulher. É o linchamento dentro do linchamento. Se verdadeira, a notícia mostra quão cíclico é este novo comportamento assumido em diversas esferas da sociedade. A polícia que não protege, o Estado que não defende “o cidadão de bem”. Estas são as falácias da classe média que acredita na justiça pelas próprias mãos.

O que essas pessoas pensam das estatísticas que mostram que a maioria das pessoas vitimadas pela violência são moços negros e pobres? Se o Estado defende a classe média tão mal quanto defende os moços negros pobres, a saída está em tornarmo-nos todos justiceiros? E com que parâmetros? A justiça para mim não é a mesma justiça para você. Por mais que as imposições de um comportamento consumista colaborem com homogeneidade do pensamento, as pessoas ainda se diferenciam por seu repertório cultural, influências sociais e outros inúmeros fatores. Ainda bem. Há que se pensar sobre o alastramento dos linchamentos.

Se tomarmos como parâmetro ‘O cu do mundo’, música de Caetano, somos, com certeza, uma triste nação na época mais podre. Parece que está tudo bem? O parecer é sempre um estado ilusório, uma assemelhação. É tão fake como os programas de segurança do Governo feitos para aumentar a sensação de segurança da população; é como se dissessem: “fizemos o que pudemos, agora eles que se linchem”. Somos todos linchadores, mas não gostaríamos de ser.

Marina Moura2Marina Moura

E-mail: mmourabarreto@gmail.com

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