Da Penha

Há dias, ela andava assim: de um lado pro outro, pisando duro, insuportável, batendo panela, derrubando escovão, chutando o cachorro, imprecando contra todos, menos contra Deus, pia que é. Quem suporta tanta indiferença de seu homem?

Pensou em dar um fim na vida – na dela, na de Alceu também. Só não pensou em dar fim na vida do louro. Testemunha ocular, ele que relatasse ao delegado a tragédia em detalhes. Estariam todos mortos. Dane-se.

Abandonou o plano amalucado. Fez bem. É o que se espera de uma temente a Deus.

Naquela noite, Da Penha tomou banho demorado, cheiroso. Esperou Alceu. Nua. Sob o lençol, igualmente cheiroso. E nada de Alceu.

Quando acordou, madrugada alta, Da Penha encontrou Alceu ressonando no sofá. De roupa e tudo. Bêbado, babado.

Cínico, o papagaio falou o que Alceu lhe ensinara, em troca de mimos:

– Alceu trabalha demais. Alceu está cansado.

Os piores pensamentos voltaram. Mato o papagaio? Mato Alceu? Mato os dois?

Pia, Da Penha não matou ninguém. Juntou as poucas roupas, fez a mala e se foi.

Destino? Ignorado.

 

Orlando Silveira orlandosilveira@uol.com.brorlando3

Blog: http://orlandosilveira1956.blogspot.com.br/

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