Peça de Plínio Marcos põe excluídos em cena

Por Mauro Fernando

maurofmello@yahoo.com.br

O desaparecimento do dinheiro que pertenceria ao cafetão Vado detona uma série de situações violentas que envolvem também a prostituta Neusa Sueli e o homossexual Veludo. Poderia ser o resumo de uma notícia, mas é a sinopse de Navalha na Carne, peça de Plínio Marcos (1935-1999). A montagem dirigida por Marcos Loureiro, com elenco formado por Anette Naiman, Fransérgio Araújo e Wilson Loria, estreia nesta sexta-feira, 30, no Teatro Garagem, na Zona Oeste da capital.

Por dar atenção aos excluídos e observar sua dor, o dramaturgo já foi chamado de voz dos que não têm voz. “Nenhum tesouro está seguro em seus cofres, quando o pai escuta o filho chorando de fome”, afirmou certa vez. “Não faço teatro para o povo, mas faço teatro em favor do povo. Faço teatro para incomodar os que estão sossegados. Só para isso faço teatro.”

Vado e Neusa Sueli ameaçam Veludo durante a peça (foto: Bob Sousa)

Vado e Neusa Sueli ameaçam Veludo durante a peça (foto: Bob Sousa)

Neusa Sueli, Vado e Veludo são personagens do submundo entrincheirados em um quarto de bordel, marginalizados pela sociedade que oprime, humilha e intensifica a solidão. “São seres humanos que a classe média vê mas com quem não conversa e que o rico vê de dentro do carro blindado”, assinala Loureiro.

A violência intrínseca aos três personagens nem sempre é física. “Há na peça a opressão. São bichos acuados se comendo, o poder muda de mãos rapidamente. Os três têm coisas a dizer, o embate é significativo. Discutem-se intolerância, preconceito, poder”, destaca o diretor.

A peça foi encenada pela primeira vez em 1967 – dirigida por Jairo Arco e Flexa, com Edgar Gurgel Aranha, Paulo Villaça e Ruthinéa de Moraes –, mas Loureiro ressalta a atualidade do texto. “Os marginalizados ainda estão aí, ao nosso redor. O mundo está cada vez mais desigual, apesar de iniciativas como o (Programa) Bolsa Família”, diz.

São 25 pessoas por sessão – o que gera proximidade entre o público, situado praticamente dentro da cena, e os atores. Há no cenário referências a outros três textos do dramaturgo: Dois Perdidos Numa Noite Suja, O Abajur Lilás e Madame Blavatsky.

Marcos Loureiro conta que procura aprofundar o trabalho de interpretação, com a valorização do subtexto, “do jeito silencioso de contar uma história”. “A interpretação não está só na fala, mas também no silêncio. Uma fala começa na anterior.”

Direção de Marcos Loureiro. Com Anette Naiman, Fransérgio Araújo e Wilson Loria. Teatro Garagem: rua Silveira Rodrigues, 331, Vila Romana. Fone: 99122­8696. Sextas e sábados, às 21h30, e domingos, às 20h. De 30/5 a 6/7. R$ 40. Recomendação: 14 anos.

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