Bortolotto retoma personagens marginais

Bandidos sem grandes aspirações, mas dispostos a muita coisa (Foto: Hudson Motta)

Bandidos sem grandes aspirações, mas dispostos a muita coisa (Foto: Hudson Motta)

Por Mauro Fernando

maurofmello@yahoo.com.br

O ator, diretor, dramaturgo e escritor Mário Bortolotto revela que Killer Joe, peça do estadunidense Tracy Letts, chegou às mãos dele por meio do ator Carcarah. “O projeto é do Carcarah. Ele leu o texto e me chamou para dirigir. Gostei da peça, há uma ligação com Sam Shepard (dramaturgo estadunidense, coautor do roteiro de Paris, Texas), tem a ver com meu estilo. Tenho intimidade para trabalhar com esses personagens”, conta Bortolotto. A montagem estreou dia 13, sexta-feira, no Teatro Cemitério de Automóveis, na capital paulista.

Killer Joe traz cinco personagens. Uma família desajustada vive em um trailer, à margem da sociedade, em confronto com o sistema. O jovem Chris (Gabriel Pinheiro), filho de Ansel (Fernão Lacerda) e irmão de Dottie (Ana Hartmann) – Charlene (Aline Abovsky) é a madrasta –, deve dinheiro ao tráfico. Elabora um plano com os familiares para se livrar do problema e contrata o matador Killer Joe (Carcarah).

“São pequenos marginais; não bandidões, exceto Killer Joe”, afirma o diretor. “Chris contrata um cara para matar a própria mãe e ficar com o dinheiro do seguro de vida, e todos concordam. Estão dispostos a tudo para somar pequenos ganhos.” Inexiste integridade de gesto nessa turma, tampouco grandeza no sentido material. “São medíocres, mesquinhos, pequenos. Não conseguem sequer almejar algo grande, não têm uma grande ambição.”

Os personagens e a trama representam um sintoma de uma sociedade doente? “Não diria tanto”, responde Bortolotto. “Na verdade, é uma história de um microcosmo familiar que eu ajudo a contar. Deixo para as outras pessoas julgarem. Não tenho a intenção de transformar essa peça em algo grandioso.” Existe niilismo nessa história? “Há, sim, no autor. Mas os personagens nem sabem o que é isso.”

Desagregação familiar resultante (ou resultado) de carências múltiplas e de sonhos desfeitos em um ambiente de esfacelamento do tecido social – um universo que não é estranho à obra de Bortolotto, autor de peças como Medusa de Rayban e Nossa Vida não Vale um Chevrolet. Universo que se encontra também na literatura por ele convertida em teatro – Mulheres (de Charles Bukowski), O Herói Devolvido (de Marcelo Mirisola) – e em peças de outros dramaturgos por ele dirigidas, como Garotas da Quadra (de Rebecca Prichard) e Tape (de Stephen Belber).

KILLER JOE. De Tracy Letss. Direção de Mário Bortolotto. Com Aline Abovsky, Ana Hartmann, Carcarah, Fernão Lacerda e Gabriel Pinheiro. No Teatro Cemitério de Automóveis. Rua Frei Caneca, 384, São Paulo, SP. Fone (11) 2371-5744. Sextas e sábados, às 21h30, e domingos, às 20h30. R$ 20. Recomendação: 16 anos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s