Adriana Grechi investiga o desejo

Núcleo Artérias expõe olhar crítico sobre a sociedade (Foto: Edson Kumasaka)

Núcleo Artérias expõe olhar crítico sobre a sociedade (Foto: Edson Kumasaka)

 

Por Mauro Fernando

maurofmello@yahoo.com.br

Investigar artisticamente o desejo na sociedade de consumo. É o que o Núcleo Artérias, dirigido pela coreógrafa Adriana Grechi, se dispõe a fazer em Escuro Visível, que estreou ontem,19, e cumpre temporada na Galeria Olido, em São Paulo, até domingo (dia 22), com entrada franca. Trata-se do nono espetáculo do Núcleo Artérias, ex-Cia. 2 Nova Dança, criado em 2003.

Três intérpretes-criadoras (Carolina Minozzi, Lívia Seixas e Nina Giovelli) traduzem para a linguagem da dança questões como o conflito ideológico entre individualismo e ação coletiva e a confusão entre desejo e necessidade, fomentada pela publicidade. “O desejo é utilizado como propulsor da sociedade de consumo”, justifica Adriana.

O desejo individual – simbolizado no “funk ostentação, por exemplo” – em oposição a ideais coletivos é o assunto da montagem, mas a coreógrafa revela que também interessa à companhia outra indagação, que interage com o tema central: “Pensar como as conexões se dão na coletividade”. Ou seja, como as pessoas se influenciam mutuamente, já que o ser humano é gregário, sociável.

Outra questão que Carolina, Lívia e Nina buscam esquadrinhar em seus corpos é a transformação – “o fio condutor do trabalho”, conforme Adriana. É possível imaginar, então, “uma pequena utopia: uma sociedade em transformação a partir dos desejos de cada um, com uma grande conexão de afetos”.

Cabe, pois, refletir sobre “uma utopia da coletividade”. Não, porém, uma sociedade “em que todos fazem as mesmas coisas”, esclarece a coreógrafa, não uma coletividade padronizada, mas uma “de indivíduos diferentes”: “Uma sociedade que abriga uma diversidade de interesses e que mantém suas conexões vivas”. Em outras palavras: “O desejo de cada um inserido no coletivo”.

Adriana confirma haver em Escuro Visível “uma busca por uma alternativa ao consumismo, por um tipo de resistência”. E também “um olhar sobre um desejo mais vital”, no qual está embutido “algo primitivo, básico, necessário para a existência”. “Um depende do outro no sistema coletivo”, lembra.

O afeto constitui outro eixo de discussão no espetáculo. “O afeto é o que conecta as pessoas”, diz Adriana. Como trabalha-se com o “corpo poroso, permeável”, as intérpretes-criadoras deixam-se “contaminar pelos afetos” e permitem “transformar-se a partir da percepção do outro”.

 

SERVIÇO

ESCURO VISÍVEL. Concepção e direção de Adriana Grechi. Com o Núcleo Artérias. Na Galeria Olido. Avenida São João, 473, São Paulo, SP. Fone (11) 3331-8399. Hoje a sábado, às 20h, e domingo, às 19h. Entrada franca. Recomendação: 12 anos.

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